Rumo ao amor, dia 34: Vontade fraca

«Queres curar-te?… Se queres curar-te, levanta-te e caminha.» Jesus não dá respostas, coloca perguntas. Queres verdadeiramente curar-te?
Está a tornar-se adulta uma geração à qual demos demasiadas respostas e impedimos de formular perguntas: «Como estás? O que queres desta vida? És feliz?». Tem-se medo que este colocar-se interrogações seja excessivamente revolucionário. Consideram-se neuróticos aqueles que se põem estas perguntas porque são obstáculo à satisfação dos instintos.
O resultado é uma geração que pensa que a vida é como uma roda de uma engrenagem que não flui nem se transforma.
Jesus, ao invés, diz: «Olha para dentro de ti e pergunta-te o que verdadeiramente queres, e se o queres, levanta-te e caminha, o teu coração seja sem medo e torne-se vasto».
A dificuldade e os obstáculos servem antes de tudo para provar a seriedade, a firmeza, a substância da nossa vontade.
«Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.»
A vontade fez-se frágil porque o nosso coração já não sabe qual é e onde está o tesouro da nossa vida, porque uma impercetível preguiça nos entorpece, impedindo-nos de cultivar e proteger esta busca.
É preciso libertar a vontade do conformismo, da preguiça e do medo que a tem prisioneira e lhe tira a coragem de ousar, de imaginar modos alternativos de viver
Lidos e acolhidos à luz do tempo presente as leituras bíblicas da Quaresmo adquirem novos sentidos. O salmo 129 dá-nos as palavras certas para uma oração justa e digna, autêntica e sincera, a partir da dura realidade que todos estamos a viver. Com o Salmo de hoje podemos rezar, gritando, os nossos medos, a nossa angústia e a nossa esperança: «Do profundo abismo chamo por vós, Senhor. Senhor, escutai a minha voz». «Do profundo/de profundis abismo» é a situação em que nos encontramos, uns mais que outros. O profundo abismos dos solitários, dos doentes, dos moribundos, dos sem-abrigo, dos cuidadores, exaustos e tantas vezes impotentes. A oração do Salmo dá-nos voz; as suas palavras dão sentido à nossa dor. Atrever-se a gritar a Deus, do profundo do seu abismo, é uma não rendição ao vazio do desespero. Porque esse grito, do profundo abismo, é também um grito de esperança: «A minha alma espera pelo Senhor mais do que as sentinelas pela aurora». A que ousadia e atrevimento nos leva a fé e a oração!
Compreendemos melhor, em nossos dias, as palavras que as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente» (cf. João 11,1.45). Tantos são os doentes que aumentam no curso dos dias pela propagação da pandemia, e correm aos hospitais ou permanecem em suas casas. Vejamos os dramas em tantos lares de idosos, ou nas prisões, lugares propícios a uma maior propagação. Com as palavras do evangelho, todos nós gritamos: «Senhor os teus amigos estão doentes». Desconcerta-nos a resposta do Senhor; temos dificuldade em compreendê-la, pois o seu sentido mais profundo escapa-nos no imediato: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Mas a contaminação do vírus pode ser mortal, sobretudo naqueles que têm as defesas imunitárias mais vulneráveis. Neste jogo de palavras e sentidos, tipicamente joanino, Jesus quer levar-nos mais longe: a doença mais mortal é a falta de esperança, o desânimo, a falta de confiança. A doença mortal é não ser capaz tornar fecunda a própria vida em situações de morte.
Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: /Bigstock.com
Publicado em 08.10.2023








