O silĂȘncio do deserto

«HĂĄ um silĂȘncio de paz, quando o deserto dispensa, ao anoitecer, a sua frescura, dando-nos a impressĂŁo de que jĂĄ chegĂĄmos ao porto tranquilo, e as velas amainaram. HĂĄ o silĂȘncio do meio-dia, quando sob o sol escaldante cessam pensamentos e movimentos. E hĂĄ o silĂȘncio profundo, quando, de noite, atĂ© a respiração se suspende, e começamos Ă escuta.»
Um provĂ©rbio tuaregue afirma que «quem nĂŁo conhece o silĂȘncio do deserto, nĂŁo sabe o que Ă© o silĂȘncio». Ă o que tambĂ©m atesta, com o excerto que citĂĄmos, o escritor-aviador francĂȘs Antoine de Sanit-ExupĂ©ry (1900-1944), que viveu alguns perĂodos em Marrocos.
Hoje, 30 de setembro, celebramos a memĂłria litĂșrgica de S. JerĂłnimo, o cĂ©lebre tradutor latino da BĂblia. Ele optou por abandonar a barulhenta e mundana Roma, onde tinha vivido recolhendo sucesso atrĂĄs de sucesso, para retirar-se no deserto de BelĂ©m.
O verdadeiro silĂȘncio nĂŁo Ă© mera ausĂȘncia de sons, como o deserto nĂŁo Ă©, de todo, ausĂȘncia de presenças. Com efeito, os sentidos tornam-se mais vigilantes e os pensamentos mais lĂmpidos, e vivem-se assim experiĂȘncias bem mais intensas.
NĂłs, mergulhados nos ruĂdos e nas coisas, flutuamos Ă superfĂcie da vida, e somos incapazes de descer Ă s profundezas. Somos incapazes de fazer limpeza na mente e no coração, de modo a deixarmos sĂł as verdadeiras realidades importantes. NĂŁo conseguimos apreciar a paz e a quietude, envolvidos como estamos no frenesim do fazer e do mover.
Eis, entĂŁo, a necessidade de uma experiĂȘncia de deserto e de silĂȘncio para reencontrar Deus e o nosso eu.
P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Bigstock.com
Publicado em 30.09.2019 | Atualizado em 08.10.2023







