Escutar o silĂȘncio

Falar do silĂȘncio. Dita assim, a frase parece um paradoxo, uma contradição dos termos. Por outro lado, acontece como para todas as realidades grandes e essenciais: sĂł se compreende bem colocando-o em confronto/contraste. Como a vida se compreende bem Ă luz da morte, assim o silĂȘncio assume sentido se confrontado com a palavra.
Com a qual, contudo, se reconcilia, porquanto silĂȘncio e palavra sĂŁo duas formas de uma mesma coisa, a linguagem, que Ă© por essĂȘncia modalidade da comunicação, da relação que se cria entre nĂłs e qualquer coisa que Ă© âoutraâ, atĂ© com aquela parte de nĂłs prĂłprios que sentimos como regiĂŁo âdiferenteâ e obscura para a qual nĂŁo encontramos palavras. NĂŁo falamos nĂłs de âvozâ ou âsom do silĂȘncioâ? Recorda-me uma bela canção, porque o silĂȘncio Ă© tambĂ©m mĂșsica.
NĂŁo quero começar com divagaçÔes pseudofilosĂłficas. Ao escrever sobre o silĂȘncio, vĂȘm Ă minha mente duas experiĂȘncias.
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Escrevi uma poesiaâŠ
A primeira tem a ver com os anos distantes e felizes quando ensinava nos meios de comunicação. Recordo que alguns alunos, quando de alguma forma entravam em confidĂȘncias, traziam-me bilhetinhos, dizendo-me: «Prof, escrevi uma poesia». Eram uma ternura. Tratava-se quase sempre de textos onde de vez em quando se ia atĂ© metade da linha, ou onde por vezes apareciam aqui e ali rimas. Ingenuidade, certamente, mas por trĂĄs das quais havia duas intuiçÔes importantes.
A primeira Ă© que para fazer uma âpoesiaâ Ă© preciso que as palavras respirem em âespaços de silĂȘncioâ, que era a zona âbrancaâ em que estavam imersas. A prosa, a narrativa, e tambĂ©m a descrição, podem ocupar toda a linha: a poesia nĂŁo, porque a emoção de que nasce precisa de ser âprotegidaâ de espaços de nĂŁo-palavra.
TambĂ©m a rima â eis a segunda intuição â tem a sua importĂąncia, porque a poesia deve, de alguma forma, âcantarâ, e como consegui-lo sem fazer tilintar as sĂlabas umas sobre as outras? Mais raro Ă© o aparecimento naquelas folhinhas de vestĂgios de ritmo, mas o essencial estava lĂĄ: Ă© o importante Ă© que o silĂȘncio Ă© pedido para fazer cantar os momentos fortes que queremos confiar Ă poesia.
A outra memĂłria Ă© musical. Aconteceu-me duas vezes nestes meses de escutar na rĂĄdio, entre o ofĂcio da VigĂlia e o das Laudes, um magnĂfico prelĂșdio de Debussy, sugestivamente intitulado âDe spas sur la neigeâ (passos sobre a neve), uma mĂșsica que parece feita de ar, macia como uma nĂ©voa luminosa, leve como a prĂłpria inconsistĂȘncia da neve, e â sensibilizou-me pela primeira vez â uma pequena cĂ©lula de duas notas que se repete com a insistĂȘncia confortante de uma presença familiar, ou que talvez faz pensar numa pessoa que caminha com ligeireza na neve.
Uma âsĂłâ pessoa, todavia, como a pega negra que faz de fulcro Ă sinfonia de brancos na belĂssima âPieâ (a pega) de Monet. Soube depois que o pianista era o grandĂssimo Arturo Benedetti Michelangeli. NĂŁo me tinha enganado: a execução era demasiado bela, mĂĄgica, quase uma experiĂȘncia visionĂĄria! E aqui a ideia do silĂȘncio colou-se a mim sobre aquela de uma leveza delicada, de uma solidĂŁo feliz e, ao mesmo tempo, de uma profundĂssima paz.
Ă tempo, agora, de tentar sintetizar alguns significados do silĂȘncio, e portanto o lugar que tem, que pode ou que deve ter na nossa experiĂȘncia de vida. Terminei recentemente um ensaio sobre a âretĂłrica do silĂȘncioâ como âlinguagem para dizer Deusâ na poesia de R.S.Thomas, e nĂŁo Ă© difĂcil fixar algumas conclusĂ”es.
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O silĂȘncio como entorpecimento
HĂĄ momentos na vida em que nos tornamos âmudosâ, diante dos quais Ă©-nos instintivo dizer: «Estou sem palavras!». Podem ser uma grande alegria ou um grande sofrimento: o elemento comum Ă© a intensidade da emoção que nos deixa como inebriados, dolorosamente ou alegremente.
Pense-se no que acontece quando um luto imprevisto, a morte trågica ou precoce de uma pessoa querida nos tira a palavra, e a comunicação é deixada para os olhos ou para os abraços.
Pense-se quando, quiçå numa volta da estrada, ou apĂłs uma curva na montanha, nos encontramos imprevistamente diante de uma paisagem arrebatadora, que nos deixa sem palavras, ainda que talvez se balbuciem ou se âexclamemâ monossĂlabos sem sentido.
Que sentido tem este silĂȘncio? Porque tem sentido. E diga-se jĂĄ: recorda-nos a pobreza, a âmisĂ©riaâ, para o dizer com S. Bernardo, das nossas âpalavrasâ (veja-se o esplĂȘndido n. 111 dos âSermĂ”es vĂĄriosâ), quando somos excedidos por alguma coisa de tĂŁo grande, que o vocabulĂĄrio, por muito volumoso que seja, se revela um pobre trapo inĂștil. Ă um silĂȘncio que nos ensina a humildade, e que denuncia desapiedadamente a radical futilidade de muito falatĂłrio que hoje grassa em todo o lado. Paradoxalmente, Ă© o silĂȘncio a ensinar-nos que a palavra Ă© uma coisa sĂ©ria.
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O silĂȘncio como opção
Se se faz a experiĂȘncia dos âbenefĂciosâ do silĂȘncio, chega-se ao ponto de o escolher atĂ© ao ponto, em certo sentido, de o programar. Entre as vantagens do silĂȘncio, acompanhado como irmĂŁ natural da solidĂŁo, hĂĄ a de nos fazer âatentosâ e/ou de nos colocar Ă âescutaâ, nĂŁo sĂł atravĂ©s dos ouvidos, mas tambĂ©m dos olhos, que nos fazem ler os outros no seu rosto e nos seus gestos, alĂ©m do que nas suas palavras.
SilĂȘncio como ir ao encontro. Seja evocada a famĂlia dos termos que tĂȘm o verbo âtenderâ (do latim âintedereâ) como coração: âatender/atençãoâ (cuidar de, ter em consideração, estar com atenção), âestenderâ (do interior par o exterior), âentenderâ (tender para o interior, apossar-se do sentido), âprotenderâ (estender para a frente, alongar), incluindo-se as versĂ”es negativas de âcontenderâ e âpretenderâ, em que a âtensĂŁoâ se torna belicosa e agressiva.
Este estender-nos para aquilo que Ă© outro e fora de nĂłs Ă© protegido e bem governado sĂł pelo silĂȘncio, essa âpausaâ que perscruta sentimentos, instintos, objetivos que evitem recontros ou equĂvocos, sobretudo com as pessoas para as quais nos âestendemosâ.
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O silĂȘncio como antena
Ă outra modalidade da anterior, e trato-a Ă parte porque nĂŁo diz respeito tanto Ă relação com as pessoas (escuta), mas com as coisas e os acontecimentos. Nasce da habituação ao silĂȘncio fĂsico e Ă solidĂŁo como lugar no qual se reencontra, por um lado, o seu centro, e, por outro, como capacidade de colher esses momentos imprevistos e imprevisĂveis a que chamamos âepifaniasâ. SĂł se nĂŁo estivermos distraĂdos pelo ruĂdo, externo e interno, chegaremos sem esforço, impercetivelmente, a descobrir um raio de beleza numa florzinha amarela, grande quanto uma ponta de dedo que desponta da fenda de uma parede de cimento, e talvez nos sugira uma reflexĂŁo sobre a força da vida.
Recordo que hĂĄ alguns dias, durante uma leitura bĂblica, o olhar escapou-me para um vaso de flores aos pĂ©s do altar, sobre o qual naquele momento tinha chegado da janela um raio de sol que as acendeu, isolando-as da penumbra. Instintivamente disse-me: que belo! A âpalavra de Deusâ nĂŁo me dizia nada naqueles instantes, mas Deus estava a falar-me nas flores acesas pelo Sol.
Gostaria de acrescentar que â Ă© sempre o poeta R.S.Thomas que o recorda â, como a solidĂŁo, tambĂ©m a lentidĂŁo Ă© irmĂŁ do silĂȘncio, permitindo-nos dirigir o olhar âpara o ladoâ, onde estĂĄ a acontecer um milagre. Cada um pense em como, alĂ©m do ruĂdo, a pressa Ă© outra desgraça do nosso tempoâŠ
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O silĂȘncio âcon-centraçãoâ
RuĂdo e pressa sĂŁo duas das coisas, entre muitas, que nos trazem para fora (dis-traem-nos) daquele centro em torno do qual devemos construir a unidade interior da nossa pessoa. O remĂ©dio Ă© encontrar a maneira de nos con-centrarmos, porque sĂł assim Ă© possĂvel navegar entre as tempestades da vida.
Quando parece que nos afogamos, pode caminhar-se com a cabeça fora da ĂĄgua que nos envolve apenas se os pĂ©s se apoiam sobre um fundo sĂłlido. Esse fundo Ă© garantido pelo silĂȘncio, um âlugarâ a construir e enriquecer com uma sĂ©rie de recursos que cada um deve saber encontrar. Porque um âsilĂȘncio vazioâ Ă© insuportĂĄvel, e tem como fruto apenas a procura espasmĂłdica de distraçÔes, num cĂrculo vicioso sem saĂda.
Os recursos sĂŁo aquelas formas de âcontemplaçãoâ que permitem povoar o silĂȘncio atĂ© o apreciar, atĂ© sentir dele uma necessidade fĂsica. SĂŁo a arte, a literatura, a mĂșsica, que chamam o silĂȘncio e ao mesmo tempo o alimentam, epifanias de beleza saboreadas a sĂłs ou em conjunto, para lhes partilhar o bem-estar que delas deriva, e cimentar assim a amizade.
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O silĂȘncio repouso
Quando se percebe toda a potencial riqueza do silĂȘncio, nĂŁo Ă© difĂcil compreender que ele âenvolveâ a palavra no sentido que Ă© o terreno fecundo que a gera e, simultaneamente, o ponto de chegada mais alto da comunicação, quando as âpalavrasâ acabam por ser inĂșteis, e atĂ© fastidiosas.
Num belo livro dedicado Ă figura do Card. Martini, intitulado âHistĂłria de um homemâ, o autor, Aldo Valli, conclui reconhecendo quanto Ă© verdade que «amigo Ă© aquele com quem se pode estar em silĂȘncio». Sem embaraço, sem necessidade de mais». Ă o silĂȘncio em que a ausĂȘncia de palavras define com felicidade nĂŁo um vazio, mas um espaço de comunhĂŁo profundamente partilhado em que se estĂĄ bem.
Na poesia âThe gapâ, R.S.Thomas evoca um Deus que se defende da âagressĂŁoâ dos homens que pretendem chegar atĂ© ele com uma âtorre de palavrasâ. Aqui o silĂȘncio rima com âmistĂ©rioâ, a entender como aquele espaço de sentido que nunca acabaremos de explorar.
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O tempo e as férias
Estamos em tempo de fĂ©rias, e aqui surge-me outro paradoxo, que na realidade Ă© apenas aparente, como o que se declarou ao inĂcio na expressĂŁo âfalar do silĂȘncioâ.
E Ă© esse duplo significado que tem em latim o verbo âvacareâ, que em francĂȘs deriva em âvacanceâ e em italiano em âvacanzaâ. Enquanto hoje o termo indica, na maior parte dos casos, um âvazioâ, ou um tempo âlivre do trabalhoâ, no latim nĂŁo se tratava sĂł de uma âliberdade deâ, mas sobretudo de uma âliberdade paraâ, como que a dizer que a primeira podia ser condição para a segunda.
E o segundo sentido de âvacareâ era o de ocupar-se de alguma coisa com toda a concentração possĂvel para criar/produzir alguma coisa de belo e de Ăștil. Torna-se assim significativo o contraste tantas vezes evocado na literatura monĂĄstica medieval entre âvacatioâ e âvagatioâ: a primeira Ă© condição para usar melhor o tempo, a segunda Ă© um fĂștil e estĂ©ril perder-se e desgastar-se naquela vĂŁ curiosidade que contrasta com a sĂŁ.
NĂŁo serĂĄ o caso, antes de ir âde fĂ©riasâ, de perguntar-se, talvez, no silĂȘncio, que uso entendemos fazer do tempo?
Nico Guerini
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 31.07.2019 | Atualizado em 06.10.2023







