“O fim do mundo”: Incómodo na marcha e olhar transcendente

Cito de cor Filipe Bragança, realizador do filme Um animal amarelo, que, na cerimónia de encerramento do Indie Lisboa deste ano, dizia que o cinema não salva, antes se interpõe e incomoda a marcha. Kafka, num seu aforismo, afirma «o verdadeiro caminho passa sobre uma corda que não está estendida ao alto, mas rente ao chão. Parece antes destinar-se a fazer tropeçar do que a ser percorrida».
A linearidade da narrativa de O fim do mundo sublinha esta ideia de cinema, incómodo na marcha e «rente ao chão», enquanto nomeação física da vida, no caso, da vida de uma comunidade e de personagens, que parecem existir para cumprir, como fatalidade, um roteiro de exclusão e marginalidade. Basil da Cunha volta, nesse filme, à Reboleira e ao coletivo de atores que aí vive, para filmar uma ficção que decorre num espaço que sabemos habitado por histórias de vida como aquela a que assistimos. Aquele chão, aquelas ruas estreitas e sombrias, onde os dias e as noites se sucedem, carregam histórias como a de Spira, dos seus amigos e restantes membros da comunidade. Há, por isso, uma dimensão documental neste filme: nele assistimos a uma amostra exemplar da realidade que se vive em tantos bairros, sobretudo nas zonas suburbanas de Lisboa. É por isso que O fim do mundo incomoda, ao fazer-nos tropeçar numa realidade social que convoca o nosso desejo de justiça e de transformação da sociedade.
No entanto, o retrato que Basil da Cunha nos propõe desta realidade alia à brutalidade das situações a delicadeza de um olhar transcendente. Assim, num bairro cujas ruas estreitas, empoeiradas e lamacentas não deixam ver o céu, à horizontalidade dos movimentos e das relações impõe-se um eixo vertical, o da insatisfação e do inconformismo que lemos, sobretudo, no olhar de Spira. Mesmo quando obedece ao roteiro previsível da delinquência, o seu desejo de purificação, que ganha forma na recorrência do elemento fogo, aponta um horizonte na paisagem (arrasta a câmara de Basil da Cunha para fora do bairro) e eleva ao céu invisível como que uma prece gratuita, dirigida por quem nada espera porque com nada conta. É deste modo que à experiência traumática da invisibilidade social, da escuridão e da morte, se contrapõe a luz purificadora do fogo, num dos casos, oferecida por Spira a Iara, objeto do seu amor e lugar de futuro.
Nos polos desta narrativa, a evocar a transcendência das alegrias e das tristezas que acompanhamos, não é por acaso que se mostra a ritualização da esperança ora na vida emergente, presente na cena inicial do batismo, ora na vida cuja perda se redimensiona e transcende, quando, numa cena final, os assassinos integram o cortejo funerário. O rosto do bebé, erguido nos braços do celebrante religioso, repercute-se nos rostos dos participantes no funeral, que a câmara do celebrante do olhar, Basil, percorre e nos dá a ver de forma fulgurante e grave. Ao nível dos olhos, num esquema horizontal de reconhecimento humano, esta cena propõe um mergulho naquilo que não se vê, o horizonte infinitamente sensível de cada uma daquelas vidas.
Basil da Cunha | D.R.
Basil da Cunha, que também venceu o prémio do IndieLisboa para a melhor longa-metragem portuguesa, nasceu no cantão francófono de Morges, Suíça, em 1985.
O cineasta de dupla nacionalidade, suíça e portuguesa, dirigiu as curtas de ficção “La loi du Talion” (26’, 2008), “À cotê” (25’, 2009), “Nuvem” (30’, 2011) e “Os vivos também choram” (31’, 2012). A seguir a “Até ver a luz”, filmou o documentário “Nuvem negra” (19’, 2014), e em 2017 iniciou a rodagem da longa-metragem agora premiada.
Selecionado para mais de uma dezena de festivais, entre os quais Locarno, Milão, Busan, São Paulo e Viena, “O fim do mundo” conquistou o Prémio do Cinema Suíço 2020, assim como os galardões de melhor longa-metragem em Valladolid e Praia, e o de melhor fotografia no Les Arcs Film Festival.
Helena Topa Valentim
Membro do júri do Prémio Árvore da Vida, IndieLisboa 2020
Imagem: “O fim do mundo” | D.R.
Publicado em 08.10.2023








