Palavras para o silêncio de Sábado Santo

Propostas para inspirar e alimentar a espiritualidade extraídas das homilias proferidas por bispos diocesanos em Portugal nas celebrações de Quinta-feira e Sexta-feira Santas, disponíveis para leitura.
«Tutelar e ser guardião dos que nos são confiados significa, como para S. José, amar com a ternura de um pai, pensando sobretudo no seu bem e na sua felicidade, agindo com discrição e com perseverante generosidade. Trata-se de uma atitude interior, que leva a nunca perder de vista os que nos são confiados, discernindo o melhor momento para se aproximar ou para se afastar, mantendo sempre um coração vigilante, atento e orante.»
Quinta-feira Santa (missa crismal)
«Esta é a hora de vivermos a nossa fé de maneira consciente e ativa e não como meros expectadores do que se passa na Igreja e no mundo.»
«O caminho que hoje se coloca perante nós cujo primeiro protagonista é Jesus de Nazaré cruza-se com o caminho de cada um de nós. Só entrando nele reconheceremos a sua finalidade e dele recolheremos o sentido da vida humana, nomeadamente do sofrimento, da ignomínia, do desprezo e da própria morte.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«A sua morte [de Jesus] é por todos, por isso também lava os pés a Judas, aquele que o vai entregar. Jesus cinge-se para a sua morte, porque na sua morte está a vitória divina sobre o ódio do mundo. Na sua morte está a sua glorificação, porque ela é a consequência de uma vida em favor dos outros, e assim o amor vence o ódio.»
«Este Deus, crucificado por mim, não permite que tenhamos uma fé egoísta, mas leva-nos a olhar para tantos crucificados por tantas injustiças do mundo de hoje. Assim é o Deus dos cristãos: um Deus débil, que não tem outro poder senão o seu amor incondicional. Quem é discípulo de Jesus Cristo crucificado aceita o sofrimento como uma experiência transformadora. O sofrimento existirá sempre, mas o amor pode convertê-lo em dom oferecido a Deus e aos irmãos.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«Neste ano de pandemia, queridos irmãos e irmãs, a morte de tanta gente, noticiada em cada dia na comunicação social, tornou mais visível e próxima de todos nós, a certeza de que morreremos. Somos seres mais conscientes da fragilidade da nossa existência, e isso deve ajudar-nos a ser humildes e magnânimos nos nossos relacionamentos com o próximo.»
Quinta-feira Santa (missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«A toalha à cintura [cf. Jesus que lava os pés aos discípulos] explica e abre perspetivas que cada cristão deve intuir e descobrir. Como consequência, a Igreja terá de aparecer diante do mundo nesta atitude de serviço. Talvez o passado nos fale de domínio e centralidade, de uma Igreja voltada para si na defesa das suas verdades. O Espírito Santo está hoje a conduzi-la para o mundo, para aí viver segundo a gramática da atenção, disponibilidade, entrega à causa. Terá de se descentrar e reconhecer que a lógica da toalha terá de ser interpretada em todos os contextos humanos. Se não somos capazes de mergulhar nos problemas humanos, não só para os analisar e apresentar teorias consoladoras, mas para apostar em atitudes que transformem a vida de todos em experiência feliz, não somos a Igreja que Deus quer e o mundo precisa.»
«A Igreja Samaritana tem de ser uma Igreja de presença, de proximidade. Terá de se colocar bem perto de todos os calvários humanos. Pode pensar que a suas forças são diminutas, que não consegue chegar onde a sua presença é necessária. Com muito ou pouco, ela deve partir na disposição de dar tudo através de um amor incondicional, totalmente oblativo e nunca marcado por qualquer tipo de interesse. É a cruz de Cristo que o exige. Ela contém um projeto de salvação da Humanidade. Por ela nada pode ser esquecido ou ficar na mesma. É luz que denuncia situações inumanas e alento para nunca se deter perante as inúmeras dificuldades.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«São João atribui expressamente ao lava-pés realizado por Jesus o significado da humildade a imitar pelos discípulos. Mas o fundamento de tudo é o amor. Jesus é o nosso lavador dos pés e o nosso pão da vida.»
«O Silêncio e a comunidade reencontram-se sob o olhar do Crucificado. É o tempo do grande silêncio (se o grão de trigo, ao cair na terra não morrer, ele permanece só; mas, se morrer, dá muito fruto – Jo 12, 24). O silêncio de Deus não significa a ausência de Deus. O silêncio de hoje envolve como a nuvem de incenso as preces de todas as pessoas que sofrem, especialmente as vítimas vivas e defuntas da atual pandemia. Rezamos com todos e por todos e recordamos igualmente com a proximidade possível os velhos, os doentes, os reclusos, que costumava visitar nestes dias pascais. O silêncio crente e orante é trilho de esperança para o encontro!»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«Esta Páscoa, que vivemos em tempos conturbados, há de levar-nos a um compromisso verdadeiramente eucarístico de celebrar e viver na caridade de Deus, que se tem de refletir na nossa caridade. Como nos ensina a Primeira Epístola de João, “não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1Jo 3, 18). É esse o testemunho de Jesus, e deve ser esse o nosso testemunho de amor que, unido ao Seu amor, salva o mundo. A entrega de amor de todos os que estão junto dos mais pobres e sofredores, de todos os que se sacrificam nas famílias, na comunidade cristã ou nas várias instâncias da sociedade, não é em vão. Estão a lavar os pés aos seus irmãos e, dessa forma, a cumprir o mandato de Jesus Cristo, o Único Salvador.»
«Todos temos sede de mais e melhor, de amor, de bondade, de justiça, de felicidade, de comunhão, de amizade… A sede é também de Deus, de quem vimos e para quem anelamos voltar, mesmo que, porventura, muito frequentemente, andemos confundidos acerca da Sua identidade e do caminho a tomar para O encontrar. Sede neste sentido metafórico, todos temos. A questão fundamental consiste em descobrir, conhecer e assumir os meios para a saciar. Aí se definem as características de uma vida, pois os caminhos reais são muito diversos e conduzem também a seguranças diferentes.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«Lembremos e rezemos na Missa da Ceia do Senhor nesta Quinta-Feira Santa de 2021 também nós, ainda em circunstâncias de restrição e confinamento, por vários povos que rezam em português e vivem em grande sofrimento pandémico, como o Brasil, ou em grande violência como o país onde nasci. Moçambique, província de Cabo Delgado e Diocese de Pemba, antiga Diocese de Porto Amélia. Imploremos por toda a Igreja que sofre perseguição. Pelos irmãos que correm risco de vida, sempre que testemunham a sua identidade cristã. Que o direito à Liberdade Religiosa seja uma realidade em todas as nações e culturas. Rezemos pelo nosso país, para no cumprimento rigoroso das regras sanitárias e num ajustado e a todos acessível plano de vacinação, consigamos criar condições e estabilidade para a tão necessária recuperação económica, evitando maiores e mais graves consequências sociais.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor)
«De que modo concreto podemos (devemos) lavar os pés uns aos outros? Quer dizer: como podemos hoje continuar aquele serviço — que é amor até fim — com Jesus amou? De que modo concreto podemos e devemos lutar esta batalha da vida, que é batalha da salvação?»
«Importa-nos perceber como, na nossa vida cristã, nos devemos confrontar com a cruz salvadora, e como podemos deixar que aquele acontecimento histórico e as narrações que no-lo fazem conhecido sejam portadores de sentido e de vida para a nossa existência e para a existência do mundo. O que nos importa é deixar que Deus faça Páscoa connosco e passe pela nossa vida.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«Não podemos também desligar a nossa atenção das novas dificuldades que a pandemia já nos trouxe e de outras que certamente nos vai trazer. É natural que as dificuldades das pessoas e das famílias que já se notam, cresçam ainda mais. E nós, com as nossas comunidades não podemos deixar de lhes dar a devida atenção. A solidariedade e a partilha, que sempre foram e são importantes marcas da presença da Igreja na sociedade, teremos que as desenvolver ainda mais, incluindo com a nossa participação pessoal de sacerdotes que, se, por um lado, precisamos de garantir o necessário para nossa vida pessoal de serviço à comunidade, por outro, não estamos dispensados de partilhar e não apenas do que nos sobra.»
«Assim caminharemos para uma sociedade com saúde. E procurar essa saúde é tanto mais necessário quanto a pandemia nos fez regredir em aspetos fundamentais da relação comunitária e mostrou deficiências que, todavia, já estavam connosco há muito tempo. Assim, fez-nos regredir, por exemplo no acompanhamento dos doentes nos hospitais e dos idosos nos lares, mas também em suas próprias casas, pelo facto de as deslocações passarem a ser mais dificultadas. Por outro lado, fez-nos compreender que o individualismo não é caminho, porque ninguém se salva sozinho e pretender organizar a vida comunitária com base na competitividade desenfreada dá mau resultado, como se está a verificar, por exemplo, em muita globalização sem ética.»
«Só a luz do crucificado pode desfazer as trevas que envolvem o nosso mundo e não nos deixam ver as crianças que continuam a morrer de fome, outras que não podem ir à escola; os idosos abandonados; povos inteiros destruídos ou compulsivamente deslocados pela guerra e pelo terror, como continua a acontecer no norte de Moçambique e tantos outros sofrimentos provocados pela maldade e pelos interesses. A Cruz de Cristo é o grande sinal de esperança que não desilude e responde aos muitos sofrimentos que se vivem nestes tempos de pandemia.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
Quinta-feira Santa (missa crismal)
«Humildade e verdade são irmãs gémeas e nunca vai uma sem a outra. A humildade mantém-nos na verdade. A nossa verdade, de sermos realmente pequenos, frágeis e insuficientes – e nem precisaríamos que a atual pandemia o lembrasse. Vejamo-lo positivamente, pois pequenez e fragilidade são outras tantas aberturas aos outros e a Deus, para só assim nos mantermos e sermos realmente “pessoas”: dos outros, com os outros e para os outros, sem autossuficiência descabida. É nesta interdependência total, humildemente aceite e ativada, que nos demonstramos “imagem e semelhança” de Deus uno e trino.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor)
«Aproveitemos esta lição da pandemia. Conjuguemos o futuro com um verbo: ajudar. Ajudar e deixar-se ajudar deveria ser a matriz da sociedade. Que é como quem diz: uma sociedade construída na dedicação aos outros, particularmente aos mais frágeis, menos egoísta, mais solidária, mais investidora em amor e em estruturas que sabe serem, mais tarde ou mais cedo, necessárias para todos e cada um. Mesmo para aqueles que, agora, as desprezam ou ignoram.»
Quinta-feira Santa (missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
«Na Eucaristia, a comunhão eclesial alarga-se aos céus, com os anjos e os santos, alarga-se na terra, lembrando o Papa, o Bispo e todos os que creem em Cristo, alarga-se até aos nossos irmãos defuntos por quem sempre rezamos. A Eucaristia alarga o nosso coração, ao mesmo tempo que reforça a nossa fraternidade cristã e a capacidade de servir e amar. Também o amor generoso para com os mais pobres, não se esgotará se tiver a sua fonte e inspiração na Eucaristia.»
«Olhando a cruz, contemplamos a quanto chegou a vinda de Deus ao mundo na pessoa de Jesus. Contemplamos um Amor de doação total e, ao mesmo tempo, a cegueira da humanidade que não se deixa amar e rejeita a justiça e a paz. (…) Sabemos do Evangelho (cf. Mt 5 e 25), que Jesus quer estar identificado com os pobres e atribulados. Por isso, a Igreja tem de estar identificada com Cristo, na causa pelos pobres no mundo, embora sabendo que não é fácil. O cuidado pelos outros, foi onde Cristo gastou mais tempo, faz parte da essência e da missão da Igreja. »
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor), Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
Quinta-feira Santa (missa crismal)
Quinta-feira Santa (missa crismal)
«Também hoje, o Senhor senta-se ao nosso lado e nos convida a todos a participar neste mistério de amor e de comunhão, a permanecer com Ele, a aprender com Ele, não só para amar os doentes e os pobres, mas toda a humanidade. A fazer da Santíssima Eucaristia esta experiência de vida que nos leva em “tudo amar e a servir Jesus”, quero dizer: Ó Jesus, eu vos louvo e vos amo no Santíssimo Sacramento. Como o Beato Carlo Acutis saibamos descobrir ao longo da nossa vida que a “Eucaristia é a auto estrada que nos conduz ao Céu”.»
Quinta-feira Santa (missa crismal, missa da Ceia do Senhor)
Sexta-feira Santa (celebração da Paixão do Senhor)
Edição: Rui Jorge Martins
Imagens: Gaetano Previati (1-14), Arcabas, Sieger Köder, Georges Rouault, Aldo Carpi
Publicado em 08.10.2023








