Cinco leituras de Quaresma ao revisitar “Des hommes et des dieux”

Percorremos por estes dias a Quaresma, tempo renovado de encontro connosco, com os outros e com Deus. Este ano vivemos inquietações e exigências diárias invulgares – oportunidade diferente, talvez, para viver este tempo de outro modo. O filme “Des hommes et des dieux” é um óptimo companheiro de caminhada quaresmal, de onde nasce uma fonte de temas paralelos à narrativa principal que nos podem ajudar a reflectir durante estas semanas. Procurei aqui captar algumas dessas impressões, especialmente as que podem ser mais propícias a revisitarmos as nossas paisagens interiores.
1. Viver em simplicidade
Começamos com um ponto que abre caminho aos restantes – a simplicidade, contexto onde pode nascer tudo o resto, onde se pode valorizar o que é importante. Um tema inspirado pelas paredes despidas do mosteiro, pelo mobiliário simples, pelos poucos objectos, num tudo reduzido ao mínimo.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
Mediados pelas imagens e sons observamos que, num contexto de humildade, os momentos de abundância adquirem uma intensidade maior. Na capela despojada, de paredes nuas e velhas, pintadas de um azul pálido, ocorrem algumas das cenas principais. É aí, no meio dessa simplicidade, que se destacam os hábitos imaculados, os paramentos dominicais, o evangeliário com delicada encadernação. Ou a monodia que, em momentos chave, dá lugar à polifonia, assinalando os pontos de maior vigor litúrgico. Estes não se confundem num mar de abundância. Pelo contrário, destacam-se como elementos essenciais onde se concentra a energia de cada cena diferente de quotidiano.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
2. O silêncio
Falamos aqui de silêncio mas não apenas do silêncio comum, de ausência de som ou ruído externo. Falamos também na ausência (tantas vezes mais difícil) de ruído interno – pensamentos, divagações, preocupações. Mesmo num tempo de afastamento e isolamento continuamos a ter uma miríade de fontes de ruído que nos enchem e distraem, sem que realmente nos preencham.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
A comunicação – e, no caso concreto da Quaresma, uma comunicação renovada com Deus – também pode acontecer no silêncio, sem palavras. Uma parte significativa do filme decorre na tranquilidade da vida monástica, com os próprios planos de câmara – frequentemente fixos e longos – a contribuir para essa percepção. Ao mesmo tempo, olhando transversalmente o filme, assiste-se à clarificação progressiva sobre algumas decisões que amadurecem na oscilação entre diálogo e silêncio.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
3. Fé através de acções
Descobrimos ao longo da narrativa um fio condutor constituído pelos variados modos como os monges se colocam ao serviço dos outros, mesmo dos outros que seriam menos evidentes. É particularmente expressiva a cena do terrorista assistido no mosteiro, em que o plano de câmara se aproxima iconograficamente do Cristo morto, de Mantegna. Aí encontramos possíveis leituras paralelas, em especial com a passagem “Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40). A própria paisagem sonora do filme sublinha este aspecto, na alternância entre música cristã e muçulmana, nos sons do muezzin e dos sinos em coexistência nas montanhas do Atlas.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
O decorrer das cenas retrata bem as várias dimensões em que nos integramos – os mais próximos do quotidiano, a comunidade local de âmbito mais alargado e ainda os desconhecidos – sendo cada uma destas dimensões objecto de cuidado dos monges de Tibhirine; surgem falhas, inquietações e dúvidas ao lidar com cada uma destas realidades, em especial as que geram conflito, mas mantém‑se inalterada a persistência de ver em todos um irmão.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
4. À volta da mesa
A mesa é lugar de encontro, espaço de familiaridade. Com a família, com amigos, para comer, para partilhar, para orar. No filme, a mesa é o lugar da refeição mas também da partilha de ideias e da discussão. Precisamos dos outros como alimento, como questionamento e como renovação para nos levarmos mais longe.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
O encontro com Deus também tem lugar na partilha, à volta da mesa – seja ela a mesa de casa ou a mesa da Eucaristia. O desenrolar do filme recorre essencialmente a três mesas diferentes que se complementam entre si – a mesa da refeição, lugar de repor as forças físicas; a mesa do Capítulo, lugar de discussão, questionamento; e a mesa da Eucaristia, lugar de ligação, comunidade, fé. Que mesas temos na nossa vida e de que maneiras nos relacionamos com os outros ao sentarmo-nos em redor delas?
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
5. Reencontrar o real e o tempo
Para concluir, uma impressão que atravessa todo o filme – a ligação visível com o tempo lento e com o mundo físico (por oposição ao virtual, que nos rodeia de maneira quase omnipresente). Na sequência inicial assistimos ao nascer do sol, introduzindo-nos no próprio despontar da narrativa e dando o mote para a importância da luz que, de modo subtil, irá enriquecer e complementar a atmosfera de cada cena. Pouco a pouco vamos entrando na vida diária dos espaços, na passagem das pessoas, ampliando gradualmente a visão à envolvente e aos planos alargados. O mosteiro é um lugar onde a tecnologia pouco distrai porque também pouca presença tem. Os cânticos são impressos no exterior, numa loja da aldeia. Um rádio simples é quanto basta para o “Lago dos Cisnes” que acompanha a última ceia. No espaço físico é mais simples de sentir e usufruir da passagem do tempo, graças às transformações que se vão dando, com os botões de flor primaveris, o calor intenso de Verão, as folhas secas de Outono, as chuvas e ventos gelados de Inverno.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
O filme está cheio de grandes paisagens, de dias solarengos e chuvosos que se vão entrevendo pelas janelas, de tarefas agrícolas que ilustram o passar do ano. Os tempos litúrgicos vão avançando em paralelo. O trabalho da matéria com as mãos ocupa um lugar central nestas sequências, com a plantação da horta e das estufas, o trabalho nas colmeias e a cuidadosa preparação dos frascos de mel, num tempo onde não existe pressa e cada tarefa ocupa o seu lugar.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
Também existe tempo para ler, para escrever, para viver a um ritmo onde é possível apreciar o espaço envolvente, a arquitectura despojada, a natureza e as paisagens. O ritmo do passo de caminhada propicia o recomeço, a uma velocidade compatível com o movimento do corpo – movimento físico, mas que se revela posteriormente no intelecto.
Possamos nestas semanas inspirar-nos com os gestos simples e com a ausência de pressa que a arte nos traz. Sejamos capazes de cultivar o silêncio e o serviço, em ambiente de simplicidade, para regressar a Deus através dos outros e do mundo. Que seja uma Quaresma renovada, amadurecida e atenta, na expectativa de uma Páscoa transbordante.
“Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
João Valério
Arquiteto, músico
Imagens: “Des hommes et des dieux” (2010) | Xavier Beauvois | D.R.
Publicado em 07.10.2023








