As Primeiras Jornadas da Pastoral da Cultura [24 e 25 de junho de 2005, Fátima] elegeram o Entretenimento como objecto para uma reflexão ampla e actual. Cerca de uma dezena de especialistas oferecerá o seu contributo para iluminar esta temática que a vida contemporânea vem revelando determinante. Cada vez mais, o modo como o entretenimento é organizado e vivido expressa aspirações e limites, permite detectar não só o imaginário de que se alimenta a cultura deste tempo, mas também a sua realidade pulsante, a sua criatividade, seus valores e contradições.

Se a democratização, multiplicação e circulação das propostas culturais de ocupação dos tempos livres são aspectos positivos de uma mutação profunda nos modos de vida, por outro lado, o perigo de se estar a reduzir a cultura ao entretenimento, ou mesmo de a arte se tornar mero produto de entretenimento, é bem real. Deparamo-nos frequentemente com uma dificuldade na distinção de antinomias clássicas: superficialidade-profundidade; verdadeiro-ficcional; real-virtual… Hoje misturam-se e interpenetram-se. Quando o mais fundo, como se diz, está à flor da pele, quando as notícias e as novelas se sucedem numa amálgama indiferenciada, quando o espectáculo se torna na própria realidade, onde encontrar critérios que permitam analisar e julgar o real e as propostas culturais? Como avaliar a qualidade dos modelos de entretenimento?

Não podemos separar a categoria “entretenimento” de “cultura”, mas é-nos exigido um esforço de compreensão deste fenómeno. Se existe, como lhe chamava Montaigne, um “honesto entretenimento”, entendido como um prazer que advém, por exemplo, do passar o tempo em companhia de um livro ou noutra actividade cultural, as indústrias da cultura, procurando entreter a todo o custo aumentando audiências e públicos, conduzem à rarefacção de conteúdos, simplificação dos conceitos e consequente banalização. É a ditadura do meio. Tendência que se torna mais perigosa, porque a banalização nos meios de comunicação e nos produtos culturais se transfere igualmente para os centros produtores de saber: os lugares de ensino transformam-se em espelhos da simplificação banalizante dos media, em especial da televisão. À imagem do espectáculo, é recusada a dificuldade em favor da espontaneidade imediatista, simplista e redutora. O tempo é ocupado no consumo ávido do que se apresenta pré-fabricado. Tudo é reduzido. Se é difícil, corta-se. Das obras de referência lêem-se os resumos e os manuais são, por sua vez, condensados em esquemas. Sobre todos paira a mesma mitologia, que é no fundo a da omnipresente cultura pop: tudo é zapping, link, montagem, citação, sobreposição.

Tendo-se tornado numa indústria, o entretenimento é também parte da sociedade de consumo. Consumo marcado pela aptidão cultural ou pelos meios económicos que se possuem – e deste modo não deixou de ser classista: quem tem dinheiro acede a uma oferta cultural mais lata; quem não tem participa na grande festa do consumo que é servida pela televisão, com a consequente (de)formação identitária.

Na modelação das mentalidades a influência da televisão traduz-se no facilitismo; na necessidade de desejar e consumir sempre coisas novas; na diminuição de sentido crítico; na procura obsidiante de uma compaginação à moda; na recusa da aprendizagem da complexidade.

O consumo de entretenimento segue o mesmo esquema da outra mercadoria: logo que o desejo é satisfeito, reproduz-se a insatisfação e surge outro desejo, num círculo vicioso interminável. O consumo gera consumo, um produto requer outro, e o vazio vai-se adensando. A grande tragédia contemporânea é, no fundo, não existir consciência da própria tragédia. A tragédia é imediatamente transformada em espectáculo. Recebemos o mundo e a realidade em zapping. Falta o tempo para a interiorização do efeito. E esse tempo demorado, essa lentidão, é fundamental para o que há de específico na formação pessoal e que está na base da cultura e da acção da Igreja: a maturação plena da pessoa.

O entretenimento pode também assim ser interpretado como uma invasão perigosa do espaço interior. Esta ocupação da vontade e do espírito por algo que vem do exterior, que entretém, é o oposto do tempo de gestação, de solidão, de pausa, de criação, exigido pela construção de uma personalidade autónoma. O entretenimento não é simples divertimento, prazer, gosto ou elevação estética. É a vivência do espectáculo, da exterioridade, do estar fora de si, da aparência, da alienação.

Esta ocupação trava caminhos individuais, igualiza e generaliza. Transforma a pessoa em mais um elemento das massas, com a pretensão de responder a expectativas genuínas e à vontade do público. Deste modo infantiliza, constrói o fácil, o imediato, a imitação da vida em vez da própria vida. Não problematiza nem abre à transcendência.

O problema reside, talvez, na incapacidade que gera para a simbolização (e é o símbolo que religa a superfície e o fundo). Deslizando à superfície tornamo-nos incapazes de transcender o visível, o tangível, a pele. A esta ausência sucedem-se outras: a da capacidade critica e a da indignação. Tudo se torna possível e aceitável. Recuamos e cedemos. Não é de espantar que alastre na sociedade contemporânea grandes zonas de afasia e deserto. Mas essa experiência de vazio, diga-se, pode-se tornar numa verdadeira oportunidade para propor desafios de qualidade. As não–certezas e a consequente perda das seguranças, pode ser um novo início: é essa a atitude que provoca uma disposição de abertura espiritual. Perdido o supérfluo e acessório, instaura-se o desejo por uma sabedoria.

Vivendo numa cultura de entretenimento, conscientes de que nela estamos mergulhados de forma inconsciente, é-nos exigido um olhar crítico sobre o que nos pode construir como pessoas livres, não recusando a faceta lúdica da existência, mas fazendo propostas alternativas de resistência à infantilização e alienação que o entretenimento podem esconder. Era importante que algumas instâncias resistissem e contrariassem esta generalizada política do superficial e efémero, nomeadamente a Igreja.

15 de junho de 2005

P. José Tolentino Mendonça, Paulo Vale
Imagem: Bigstock.com
Publicado em 18.02.2026