Aprender o silĂȘncio

Sem silĂȘncio, nĂŁo hĂĄ vida interior, adverte a tradição espiritual, unĂąnime. Mais do que ao ruĂdo, este silĂȘncio opĂ”e-se Ă dispersĂŁo, Ă agitação. Ă um recolhimento em que âas coisas a fazerâ e as distraçÔes sĂŁo mantidas no seu lugar. As atividades manuais, a caminhada, sĂŁo uma boa maneira de as amansar.
Para os Padres do Deserto, o silĂȘncio Ă© essencial para afinar a sensibilidade e a capacidade de escuta (de si, dos outros, do EspĂrito). O silĂȘncio Ă© o hĂșmus da oração contemplativa, a presença diante do Senhor.
«Um irmĂŁo vai atĂ© ao pai MoisĂ©s e pede-lhe uma palavra. O anciĂŁo diz-lhe: âVai, senta-se na tua cela, e a tua cela ensinar-te-ĂĄ todas as coisasâ.» «Dizia-se do pai Agathon que passou trĂȘs anos trazendo um calhau na boca, atĂ© aprender a calar-se.» «O monge reconhece-se nĂŁo pelas suas palavras e discursos, mas pelo sentar-se em silĂȘncio» (S. JerĂłnimo, sĂ©c. IV).
«A conduta que temos ao longo do dia prepara, ou torna mais difĂcil, a paz e o silĂȘncio nos quais Ă© bom permanecer para a oração⊠Para os Padres do Deserto, manter-se na cela, mesmo se o aborrecimento Ă© nela profundo, mesmo se a oração nela Ă© quase impossĂvel em certos dias, guardar a cela Ă© o grau Ășltimo da fidelidade.
Sentar-se em silĂȘncio Ă© da mesma ordem, todos sabem que se pode ficar em casa mas nela viver numa agitação frenĂ©tica, porque quando a oração Ă© ĂĄrida, torna-se mais urgente fazer limpezas ou mudar as coisas de lugarâŠ
Manter-se sentado, nos tempos que a isso sĂŁo consagrados, Ă© manter-se na fidelidade a Cristo e Ă sua presença, renunciar a todas as atividades que se apresentam num dia aliciante, ou sob a aparĂȘncia da urgĂȘncia.
Pode dizer-se que trata-se de manter-se sem fazer nada quando haveria tantas coisas para fazer, aparentemente, o que significa que ao renunciar ao agir manifesta-se que hå prioridades que ultrapassam a ação, pelo menos em certos momentos» (Fr. Jean-Marie Guelette, OP).
Antes de começar as atividades do dia, concedo um breve momento â um ou dois minutos â para tomar consciĂȘncia de mim: «Sou muito mais que as coisas que fiz ou que tenho a fazer. Sou vivente! Ă um dom. Olho para o Doador e alegro-me: obrigado!».
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Orar com simplicidade
Instalo-me confortavelmente. Tomo consciĂȘncia das minhas emoçÔes, nesse momento e aquelas que vivi durante o dia. Nomeio esses sentimentos (alegria, prazer, cansaço, tristezaâŠ), um impulso, uma preocupação. Acolho-os. Pergunto-me: o que senti? Ă na nossa vida que o Senhor nos espera, nĂŁo fora dela.
A partir deste enraizamento na minha realidade, posso colocar-me na presença do Senhor pela fĂ©, com aquilo que sou. Posso chamĂĄ-lo «Pai Nosso», «Senhor Jesus», «EspĂrito Santo» – a oração Ă© relação. Permaneço, sem me prender aos pensamentos que me atravessam.
Leio a Palavra de Deus â por exemplo, o Evangelho do dia. Deixo-o ecoar no silĂȘncio. Posso dialogar com ela, com o silĂȘncio em fundo.
As distraçÔes sobrevĂȘm? Algumas palavras de louvor, de sĂșplica, podem relançar a minha atenção silenciosa.
Ao longo do dia mantenho momentos de silĂȘncio. NĂŁo sou obrigado a ligar o rĂĄdio no automĂłvel, de ver televisĂŁo em âzappingâ, etc. Dirijo-me brevemente ao Senhor, talvez com uma palavra de louvor, uma sĂșplica, um movimento do coração.
Aos poucos, estas prĂĄticas permitem exercer um discernimento sobre os movimentos espirituais interiores: que produz esta emoção em mim? Onde me conduz? Devo vivĂȘ-la mais, ou, pelo contrĂĄrio, travĂĄ-la? Partilhar estas questĂ”es em diĂĄlogo com uma pessoa experimentada no acompanhamento espiritual Ă© fecundo.
Christophe Chaland, Ir. Marie-Paule Peyronnaud
In Le PÚlerin
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: HalfPoint/Bigstock.com
Publicado em 07.10.2023








