Francis Bacon, o anateĆsta da carne crucificada?

Pois o sentimento, caro jovem, Ć© divino. O ser humano Ć© divino se for capaz de sentir (1).
Ć ocasiĆ£o de regozijo podermos contemplar duas figuras maiores da história da arte, dois artistas do transcendental, diremos nós, nas exposiƧƵes “Alberto Giacometti – Peter Lindbergh. Capturar o InvisĆvel” e āObras GrĆ”ficas de Francis Baconā, comissariadas por Charlotte Craps, sob o alto patrocĆnio da Taylorās Port, sociedade gestora e proprietĆ”ria do deslumbrante quarteirĆ£o cultural World of Wine, em Vila Nova de Gaia. Este ensaio sobre Bacon surge no contexto desta exposição, nos antigos armazĆ©ns do Vinho do Porto, transformados agora em galeria de arte, mais conhecida como WOW. A exibição das obras grĆ”ficas de Francis Bacon, apresentadas conjuntamente pela primeira vez no nosso paĆs, foram produzias entre 1971-1991, expressando os diversos itinerĆ”rios e desvios da sua vida artĆstica. A exposição inicia com a obra de 1955, Study for a Portait II e termina com Second version of triptch 1944 (1988). Como se descreve na folha de sala, extraordinariamente bem pensada: Ā«Nesta exposição, apresentamos vinte e trĆŖs obras que vĆ£o desde litografias, gravuras e Ć”gua-tintas feitas por aclamados mestres da impressĆ£o, como Mourlot, Maeght e Georges Visat, sob a rigorosa supervisĆ£o e parceria de Francis BaconĀ» (cf. Introdução).Ā A exposição termina com a possibilidade de saborear e degustar um cĆ”lice de Vinho do Porto, que estĆ” incluĆdo no bilhete, tal como na exposição de Giacometti-Lindbergh, que termina no novo e belĆssimo jardim panorĆ¢mico do MMIPO. Trata-se, de facto, de duas exposiƧƵes mundiais, nĆ£o só pelos artistas aĆ exibidos, mas pela excelĆŖncia do cuidado com que foram preparadas, e pela possibilidade que nos dĆ” a pensar o impensĆ”vel.
A metĆ”fora, a analogia, a hipĆ©rbole ou o eufemismo, a ironia, sĆ£o modos possĆveis de pensar e imaginar a verdade do ser. Modos de acesso ao real, de captar ou apreender, no próprio acto de linguagem, as vias de coloração dos tempos acinzentados. Nem sempre Ć© fĆ”cil discernir a fronteira entre o que pertence Ć analogia e ao real, ao hiperbólico e ao irónico, ao efectivo e ao lógico. A redução dos vocĆ”bulos ao mĆnimo dominador comum, ao funcional e ao Ćŗtil (sanitĆ”rio, financeiro e partidĆ”rio-ideologizante), impede o uso alargado da metĆ”fora no quotidiano, a possibilidade de novas visƵes sobre o andamento próximo do mundo.Ā Fernando Pessoa, esse inventor do extraordinĆ”rio e de novos acessos Ć realidade, segundo a lógica das sensaƧƵes ou do pensamento sensĆvel, escrevia assim:
HĆ” metĆ”foras que sĆ£o mais reais do que a gente que anda na rua. HĆ” imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. HĆ” frases literĆ”rias que tĆŖm uma individualidade absolutamente humana. Passos de parĆ”grafos meus hĆ” que me arrefecem de pavor, tĆ£o nitidamente gente eu os sinto, tĆ£o recortados de encontro aos muros do meu quarto, na noite, na sombra [ā¦]. (2)
HÔ três elementos existenciais que são fundamentais para o acto de pensar a verdade do ser das coisas: não cessar de explorar o mundo; não se acomodar ao bom senso; despertar significados adormecidos
Cada acto ou gesto Ć© sempre o fulgor de uma luta com (nĆ£o contra) o incognoscĆvel, que, mais do que sentimento mĆstico extra-mundo, Ć© precisamente um modo de aproximação ao real. O incognoscĆvel que se manifesta numa rua vazia, num rosto abismado, numa Ć”rvore florescente, numa praƧa alegre, num objecto afectivo, numa genuflexĆ£o orante, na perda de alguĆ©m. Ć desta luta com o inesperado que advĆ©m uma possĆvel imaginação de novos horizontes. A arte, no seu sentido pleno e abrangente, nĆ£o nos aquieta ou sossega, antes pelo contrĆ”rio, desengaveta-nos das nossas certezas adquiridas.
O enigma do incognoscĆvel residirĆ” aĆ, no entre do branco e do negro, o acinzentado, grĆ”vido de coloração, e nĆ£o fora dos entes ou na sua sobrevinda fantasmagórica. Ver as mĆŗltiplas cores do mundo no cinza, a aparĆŖncia natural e imperfeita, o corpo animado sem artifĆcios, a instabilidade operante da matĆ©ria corporal. DaĆ a dificuldade em obter uma boa imagem a preto e branco, bem mais difĆcil do que a cores, porque nos implica verdadeiramente na nudez da sua manifestação, sem distraƧƵes. Ver as cores do mundo no evento-fundo cinza! Ā«A reprodução a cores nunca corresponde Ć percepção real do espectador, o preto e branco parece-lhe ser o Ćŗnico meio de evitar toda e qualquer falsidade, bem como de alcanƧar a realidade […] Por essa razĆ£o, os seus quadros em tons de cinzento tĆŖm, para ele, um āefeitoā muito mais coloridoā do que se os tivesse pintado a cores.Ā» (3)
O que sentimos quando contemplamos a obra de Francis Bacon? A realidade crua e violenta do mundo sem «Deus». A dimensão cristã da arte de Bacon é inegÔvel, pelo menos como fonte de inspiração, partindo mesmo da radicalidade do dogma paradoxal da encarnação de «Deus»
Transpondo para o plano teologal, Ć© como se o crente entrevisse a forƧa da ressurreição na debilidade crucĆfera, como impossibilidade de passar a um outro modo de ser sem o aguilhĆ£o cinzento do morrer… A possibilidade do afastamento do cĆ”lice nĆ£o se dĆ” sem o impossĆvel ou impensĆ”vel abandono divino na hora mais escura ou cinzenta do dia… Ou de ascender sem levantar os pĆ©s do chĆ£o… Nem todos acedem a essa linguagem cifrada, no acto da conversação quotidiana, por exemplo, que nĆ£o Ć© da ordem moral ou pragmĆ”tica, mas de uma expressĆ£o ulterior (ontológica) das coisas, sempre por traduzir completamente, porque o nosso dispositivo linguĆstico Ć© frĆ”gil e incompleto para abarcar esse incognoscĆvel que se manifesta ou expressa de diversos modos, que nĆ£o estrita e exclusivamente discursivos. Como nos diz Sophia de Mello Breyner, Ć© a ardilosa arte de Ā«pĆ“r o mistĆ©rio a ressoar em redor de nósĀ». NĆ£o estarĆ” a forƧa inventiva de algo aqui, a sua verdade mesma?
Segundo o filósofo italiano Enzo Paci, hĆ” trĆŖs elementos existenciais que sĆ£o fundamentais para o acto de pensar a verdade do ser das coisas: nĆ£o cessar de explorar o mundo; nĆ£o se acomodar ao bom senso; despertar significados adormecidos. Isto Ć©, influenciar o pensamento, seja ele de que natureza for, e a cultura, atravĆ©s de uma leitura fenomenológica dos acontecimentos… Mas tudo permanece muito pobre, frĆ”gil, aquĆ©m do dito e do feito, e por isso procura-se sempre, atĆ© chegar o momento em que jĆ” nĆ£o serĆ” necessĆ”rio buscar mais, pois simplesmente as coisas acontecerĆ£o em nós, como um milagre inesperado, insondĆ”vel, mas perceptĆvel Ć sensibilidade e Ć imaginação humanas.
Acontece que hoje caminhamos para a concepção total de indivĆduos atomizados e inestĆ©ticos, incapazes de sentir o que quer que seja, em virtude das perdas sensoriais irreparĆ”veis. E o que sentimos quando contemplamos a obra de Francis Bacon? A realidade crua e violenta do mundo sem Ā«DeusĀ». A dimensĆ£o cristĆ£ da arte de Bacon Ć© inegĆ”vel, pelo menos como fonte de inspiração, partindo mesmo da radicalidade do dogma paradoxal da encarnação de Ā«DeusĀ». NĆ£o se trata apenas de uma doutrina, mas como demonstra a sua arte, Ć© um existencial que faz sentido, na medida em que diz a relação sempre tensa entre Ā«DeusĀ» e o humano, por vezes a raiar a violĆŖncia do desejo de consumação, como o cĆ©lebre quadro de EugĆØne Delacroix, La Lutte de Jacob avec l’Ange (1856-1861).
Toda a verdadeira arte Ć© uma confrontação, seja para o negar ou afirmar, com a presenƧa real da transcendĆŖncia. Este critĆ©rio Ć© claramente uma hipótese plausĆvel para a compreensĆ£o da obra do artista britĆ¢nico ou de toda a grande arte
Portanto, o drama da carne Ć© omnipresente na obra de Bacon, na medida em que foi tambĆ©m o seu próprio drama. A carne ferida, escondida, esventrada, pĆŗtrida, sexual, erótica, pecaminosa, ressurrecional, anónima ou invisĆvel, Ć© carne universal, pois nela se expressa densamente a nossa própria humanidade, a passagem dramĆ”tica do tempo na carne. Os quadros de Bacon sĆ£o a expressĆ£o mĆ”xima do homem moderno, autónomo e independente de qualquer transcendĆŖncia, que vive como se Deus nĆ£o existisse (etsi Deus non daretur), para usarmos uma expressĆ£o de Dietrich Bonhoeffer, como se houvesse apenas o aqui e agora, sem possibilidade de uma redenção ulterior da materialidade. NĆ£o se trata de um juĆzo moral sobre a bondade ou perniciosidade tal abandono, mas a evidĆŖncia do drama teológico e antropológico, a degradação originĆ”ria do humano, e do seu impossĆvel resgate nos estritos limites da imanĆŖncia.
Como argumenta Deleuze, numa obra magistral dedicada a Bacon: Ā«Só nos aƧougues Bacon Ć© um pintor religiosoĀ» (4). Nas próprias palavras do artista: Ā«Sempre me senti muito tocado pelas imagens relativas aos matadouros e Ć carniƧa, e para mim tais imagens estĆ£o estritamente ligadas a tudo o que diz respeito Ć Crucificação [ā¦]. NĆ£o hĆ” dĆŗvida de que somos carniƧa, somos carcaƧas em potĆŖncia. Se vou a um talho, acho sempre surpreendente nĆ£o estar ali eu em vez do animalĀ» (5). Assim, podemos dizer que Bacon Ć© o teólogo visual da carne crucificada, da ferida humana que comunga da ferida aberta do próprio Cristo, como emblema universal do trĆ”gico, mas tambĆ©m do salvĆfico. A ālógica da sensaçãoā (Deleuze) de Bacon Ć© o sentir encarnado de um corpo em mutação, cuja significação ou semiótica nos escapa profundamente. HĆ”, portanto, em nosso entender, no artista irlandĆŖs, a expressĆ£o pictural da figuração de uma endo-teologia, quer dizer, de uma tensĆ£o subterrĆ¢nea de confrontação com a possibilidade de Ā«DeusĀ», como acontece, por exemplo, com DostoiĆ©vski ou Emil Cioran. Ć o apofĆ”tico que emerge na sua arte. Como nos recordava Steiner, toda a verdadeira arte Ć© uma confrontação, seja para o negar ou afirmar, com a presenƧa real da transcendĆŖncia. Este critĆ©rio, ideologicamente preterido em virtude das leituras historicistas ou simplesmente semióticas, Ć© claramente uma hipótese plausĆvel para a compreensĆ£o da obra do artista britĆ¢nico ou de toda a grande arte.
Em Bacon, encontra-se tudo: o religioso, a psicanÔlise, arte, a ética, estética, a filosofia, Nietzsche, a vida na sua quotidianidade, crua e dura. A consciência aguda da tragédia pessoal e colectiva, da violência, o caos existencial. Mas também hÔ lugar para o sublime
Assim, podemos dizer que «Bacon procurou expressar o que sentia em viver num mundo sem Deus e sem vida após a morte» (6). Bacon pintou o que Nietzsche havia profetizado e praticado, não só com o anúncio da «morte de Deus», a de um Deus demasiadamente conceptual e moral, mas com essa morte, a transmutação de todos os valores, e a necessidade de criar uma nova ordem axiológica que fosse afim à exclusiva vontade de poder. A questão estÔ em saber se o «Humano Demasiado Humano» (Nietzsche) se pode bastar a si mesmo como absoluto que tudo relativiza perante a auto-afirmação projectual do sujeito, sem a abertura ao outro próximo ou distante de si?
Esta instauração do imanente absoluto, do humano autossuficiente e narcĆsico, Bacon expressa-a de modo Ćŗnico nos seus quadros, mais precisamente, a violĆŖncia de ser si mesmo sem a presenƧa de Outrem ou na negrura absoluta da TranscendĆŖncia. Em Bacon, encontra-se tudo: o religioso, a psicanĆ”lise, arte, a Ć©tica, estĆ©tica, a filosofia, Nietzsche, a vida na sua quotidianidade, crua e dura. A consciĆŖncia aguda da tragĆ©dia pessoal e colectiva, da violĆŖncia, o caos existencial. Mas tambĆ©m hĆ” lugar para o sublime (a simbólica do cor de rosa tĆ©nue ou dos alaranjados apaziguantes, espĆ©cie de serenidade solar após a turbulĆŖncia marĆtima), ao menos para a simples aspiração do humano a sobrelevar-se da sua animalidade, a atingir um significado ou sentido que resulta sempre inatingĆvel. Na sua obra hĆ” uma tensĆ£o permanente entre as diversas tonalidades afectivas, entre o racional e o irracional, o civilizacional e o animalesco, o humano e o divinoā¦
Ā«Numa vida de permanente fuga Ć morte, o artista ateu viu a imagĆ©tica cristĆ£ ser o seu maior aliado e arma num percurso artĆstico em que este tema consegue ser traƧado do seu primeiro ao Ćŗltimo quadroĀ»
Francis Bacon, que pintou a trindade na ruĆna da carne, cuja opção pelo suporte trĆptico nĆ£o serĆ” alheia a essa dimensĆ£o espiritual, escrevia: Ā«Quando estamos a pintar qualquer coisa, estamo-nos a pintar a nós próprios tambĆ©mĀ». Nem sempre os que falam ou escrevem se falam ou se escrevem a si mesmos. Falta muito o āseā reflexivo… o enigma da linguagem… E, no entanto, todos, no tempo próprio, deixaremos de ser simulacro, para passar a ser cinza pura e verdadeira. NinguĆ©m escapa a isso… O enigma dos enigmas, a morte, como o paredĆ£o Ćŗltimo do sonho da imortalidade que a tecnociĆŖncia procura abater com todas as suas forƧas, como tentativa desesperada de forƧar os limites do humanamente pensĆ”vel. Como afirma a curadora da exposição: Ā«Numa vida de permanente fuga Ć morte, o artista ateu viu a imagĆ©tica cristĆ£ ser o seu maior aliado e arma num percurso artĆstico em que este tema consegue ser traƧado do seu primeiro ao Ćŗltimo quadro. Enquanto artista, destacou-se por transformar compulsƵes inconscientes em formas figurativas e grotescas, revelando-se obcecado pelo horror da existĆŖncia e vulnerabilidade do ser humano.Ā» (7)
Feliz obsessĆ£o, diremos nós, porque ela estende sobre a nossa vulnerabilidade um olhar luminoso, sem a sublimar ou esconder, mas trespassando-a ou habitando-a por dentro, nĆ£o por via do conformismo, mas por uma luta permanente com os seus próprios demónios e estigmas. Esta dimensĆ£o do mal radical, em Bacon, que a imagĆ©tica cristĆ£ apelida de āpecado originĆ”rioā, no sentido que hĆ” um caos que nos precede, uma espĆ©cie de zona ou buraco negro cósmico (cf. a presenƧa desta dimensĆ£o da ānoite escuraā nos vĆ”rios quadros de Bacon), do qual saĆmos e para o qual podemos a todo o instante voltar, nĆ£o Ć© primeiramente uma realidade moral, Ć©, sim, ontológica, no sentido que pertence ou estĆ” radicada no mais profundo do nosso ser. Ć aqui que o humano raia Ć animalidade, a possibilidade da metamorfose em algo ou totalmente diverso de si, como acontece na parĆ”bola literĆ”ria ou existencial āA Metamorfoseā, de Francis Kafka, em que o humano (Gregor Samsa) devĆ©m animal (insecto), por via da corrente de forƧas pessoais e impessoais que agrilhoam a sua carne solitĆ”ria no seio da comunidade familiar.
O sacro encontra o profano, o religioso o poĆ©tico, numa āfeliz contaminaçãoā de estilos existenciais. Só uma visĆ£o dualista das coisas ousa dividir o que estĆ” ontologicamente próximo
Sem dĆŗvida, assim pensamos, que estes dois artistas, Bacon e Giacometti, sĆ£o a expressĆ£o superior do espiritual na arte, na mediação paradoxal e dialĆ©ctica entre a figuração e a abstracção, ou melhor, na capacidade singular de relativizar o que Ć© figural e o que Ć© abstracto, como se estas duas formas de dar corpo ao material e ao imaterial, de tornar visĆvel o invisĆvel, pudessem ser pensadas separadamente. SĆ£o dois artistas do corpo sensĆvel, a partir do quais ou entre os quais, se poderĆ” inaugurar toda uma outra via artĆstica ou pensamento estĆ©tico, o da universalidade singular do anonimato da carne, de que falava o filósofo Merleau-Ponty. Esta carne anónima nĆ£o Ć© atomização ou individuação separada, mas relação viva e pulsional com a carne do mundo, de tal modo que jĆ” nĆ£o somos nós que pensamos as coisas (a obra de arte, a paisagem, o rostoā¦) mas sĆ£o as coisas que se pensam em nós. Esta espĆ©cie de simbiose diferenciada, nunca indiferente Ć diferenƧa dos entes, interpela-nos e convoca-nos para a comunicação imemorial, mais real do que a própria presente de si a si mesmo ou a outrem, na medida em que nos precede e permanentemente nos vem Ć consciĆŖncia ou Ć memória.
Seria ousado chamarmos a esta Carne, ou Ser, Ā«DeusĀ», na medida em que nele, como diz Paulo de Tarso, citando talvez o poeta grego EpimĆ©nides (sĆ©c. VI, a.C.) e Arato (sec. III a.C.), no seu poema astral Fenómeno 5: Ā«Pois nele vivemos e nos movemos e existimos, como tambĆ©m o disseram alguns dos vossos poetas: Da raƧa dele tambĆ©m nós somos. Sendo nós da raƧa de Deus, nĆ£o devemos pensar que semelhante a ouro ou a prata ou a pedra ā a coisa gravada pela arte e imaginação do homem ā Ć© o DivinoĀ» (8)? O sacro encontra o profano, o religioso o poĆ©tico, numa āfeliz contaminaçãoā de estilos existenciais. Só uma visĆ£o dualista das coisas ousa dividir o que estĆ” ontologicamente próximo. Com certeza, nĆ£o o Deus conceptual dos sistemas filosóficos teĆstas, causa sui sem correspondĆŖncia nem relação, ou da explicação causal e Ćŗltima de tudo, mas o Ā«Deus sensĆvelĀ» (Blaise Pascal) Ć carne abissal, aquĆ©m de nós, como forƧa ou pulsĆ£o vital que dinamiza a corrente da história e a transformação da matĆ©ria. Do Ā«DeusĀ» (Carne anónima) que se faz sentir nesse āmistĆ©rio em redor de nósā, e entre nós, nas pregas ou franjas da matĆ©ria imaterial, como massa ou buraco negro, em torno do qual rodopiamos, seja para o crer, imaginar ou simplesmente negar. E todavia, a negação, porque Ele vem sempre Ć ideia ou nos sĆmbolos culturais que nos circundam como vestĆgios inapagĆ”veis, para alĆ©m evidentemente da convicção crente religiosa, Ć© passivamente um outro modo de afirmação. Como argumenta Florence Gaillard, no seu artigo Francis Bacon Ć corps et Ć cri:
O homem de Bacon Ć© um homem sem Deus, um animal entre outros animais, respondendo como tal ao medo, Ć s necessidades fĆsicas. Mas, ao contrĆ”rio do animal, este homem aspira a um sentido que nĆ£o alcanƧa. Portanto, ele sofre. A sua carne tortura-o, ele grita, nĆ£o hĆ” ninguĆ©m que possa fazer mais por ele. Deus nĆ£o estĆ” aĆ, mas o cristianismo Ć© onipresente nas suas pinturas: seja nos retratos de papas de sua primeira Ć©poca, seja em sua sĆ©rie de crucificaƧƵes, que em Bacon sĆ£o apenas formas sofisticadas de carnificina, a iconografia cristĆ£ escoa, desabrocha mesmo, nos seus aspectos sacrificiais, mas tambĆ©m eróticos. (9)
«Que farÔs tu, Deus, quando eu morrer»? E se, como Bacon, não ousarmos fazer essa pergunta, o que nos restarÔ? A violência da luta das espécies?
Assim, a arte pictural de Bacon radicaliza e dramatiza a carne do InvisĆvel, na medida em que vive permanentemente no fio da navalha, no confronto com a possibilidade desestabilizadora da sua existĆŖncia, nĆ£o enquanto ente abstracto, mas enquanto habitĆ”culo do nosso próprio ser. Ć neste nĆ£o-sentido da existĆŖncia, exacerbada em surdina pela nĆ£o-presenƧa visĆvel de Ā«DeusĀ», que leva Ć disformidade e desintegração do corpo-humano (humanizado) em corpo-animal (desumanização), que entrevemos Baco como anateĆsta, quer dizer, o teólogo ateu da carne crucificada, da negação do Ā«DeusĀ» omnipotente, e a afirmação do regresso (anateĆsmo) do Ā«DeusĀ» crĆstico por via e na fragilidade humana, como modo fundamental da sua presenƧa. Esta fuga ao divino clĆ”ssico Ć© simultaneamente ĆŖxodo do humano, a impossibilidade mesma de pensar o humano, sendo esta impossibilidade da possibilidade de Ā«DeusĀ», o trauma inesquecĆvel do próprio artista, a incapacidade de nomeação, a ferida de morte que os fluĆdos e lĆquidos corporais (sĆ©men, urina, sangue, lĆ”grimasā¦) anunciam em permanĆŖncia. Ou dito doutro modo, com a interrogação do poeta Fernando Pessoa: Ā«Onde estĆ” Deus, mesmo que nĆ£o exista? Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que nĆ£o cometi, gozar ser perdoado como uma carĆcia nĆ£o propriamente maternaĀ» (10).
A liquidez existencial, a vida entendida como āliquidadeā instĆ”vel, escorreita, esventrada, leve, sem peso nem medida, sem solidez, advĆ©m precisamente dessa ausĆŖncia brutal do Transcendente, ou pelo menos, o que jĆ” sintomĆ”tico de uma crise, da incapacidade de o nomear como fonte de sentido e de salvação. Restar-nos-Ć” o desespero de uma existĆŖncia vivida na radical imanĆŖncia, sem esperanƧa de uma transformação ou transfiguração da materialidade? O que nos acontecerĆ”, o que somos ou seremos, quando nĆ£o podermos mais divertir-nos, e a festa se revelar uma āfesta da insignificĆ¢nciaā (Milan Kundera)? Essa era a pergunta de Rainer Maria Rilke: Ā«Que farĆ”s tu, Deus, quando eu morrerĀ»? E se, como Bacon, nĆ£o ousarmos fazer essa pergunta, o que nos restarĆ”? A violĆŖncia da luta das espĆ©cies? ValerĆ” a pena destacar aqui as palavras do próprio artista irlandĆŖs:
A minha pintura nĆ£o Ć© violenta; a vida Ć© que Ć© violenta. Vivenciei a violĆŖncia fĆsica, inclusive tive os meus dentes fraturados. Sexualidade, emoƧƵes humanas, vida quotidiana, humilhação pessoal ā a violĆŖncia faz parte da natureza humana [ā¦] Nascemos, fazemos sexo, morremos. O que poderĆ” ser mais violento do que isto? Ć atravĆ©s de um Ćŗnico grito que nascemos para este mundo. O sexo Ć© um acto muito violento, principalmente entre homens e nem vamos falar da morte [ā¦]. A minha pintura Ć© uma representação da vida, e, acima de tudo, da minha própria vida, que tem sido muito difĆcil. EntĆ£o, talvez a minha pintura seja muito violenta, mas isto Ć© algo natural para mim. (11)
A arte, se a hÔ efectivamente, vive na encruzilhada que a reduziu ao comercial e ao gosto superior do maior número de consumidores, ao facto de jÔ não existir aparentemente a ferida, a rasura, a sujidade, rugosidade ou errÔtico, para ser iluminada
Ora, Ć© precisamente desta confissĆ£o encarnada que nasce a pulsĆ£o poĆ©tica criativa da sua obra, que nĆ£o sublima nada do que Ć© humano em subterfĆŗgios ilusórios ou simplesmente em simulacros que distorcem a própria percepção de si, da obra mesma e da realidade que o envolve. Toda a grande obra de arte, as verdadeiras reformas do pensamento e das instituiƧƵes, nasce desta ferida na carne, do divino de dom de iluminar a ranhura dessa ferida que Ć© comum a todos os humanos. Muito possivelmente estas nĆ£o serĆ£o as questƵes que inquietem os humanos de hoje, Ć”vidos que estamos para voltar Ć dita āvida normalā, Ć folia do esgotamento de si no imediato das relaƧƵes e dos encontros sociais. Mas estes āmetafĆsicos da carneā estĆ£o aĆ para nos sinalizar as questƵes radicais, com as quais, mais dia menos dia, teremos de nos confrontar ou atĆ© lutar, que dizer, atravessar mar adentro. Se, como escrevia Genet sobre a arte de Giacometti, Ā«na origem da beleza estĆ” unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visĆvel, que todos os homens guardam dentro de si [ā¦]. A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumineĀ» (12), mais presente ainda estĆ” essa ferida inesgotĆ”vel na obra de Bacon.
NĆ£o hĆ” beleza sem ferida, sem gangrena carnal, sem o reflexo especular que reflecte a vida toda como obra de arte e a obra como expressĆ£o vital de si, sem, contudo, obliterar a rĆ©stia de opacidade elementar que resiste Ć concordĆ¢ncia absoluta de uma com a outra. Ā«A Minha Obra Ć© o Meu Corpo, O Meu Corpo Ć© a Minha ObraĀ», escrevia a artista Helena Almeida. NĆ£o foi assim que os gĆ©nios da humanidade se revelaram, sem pudor nem fama, numa existĆŖncia, para a maior parte deles, sem reconhecimento in vita? Mais do que pretende saber se a vida traduz a obra ou a obra a vida, Ć© fundamental ir «à s coisas mesmasā, em ācarne e ossoā, ao olhar fenomenológico sobre o que se nos dĆ” a ver ali mesmo, onde corpo e obra sĆ£o um só, como a comunhĆ£o dos corpos eróticos, na diferenƧa irredutĆvel dos seres entre si, se faz só corpo na relação amorosa dos amantes. Para usarmos uma metĆ”fora visual, āO Meu Sangue Ć© o vosso Sangueā, como intitula Rui Chafes a sua peƧa escultural permanente no Museu da Misericórdia do Porto. Diante da Ā«sociedade do espetĆ”culoĀ» (Guy Debord), da Ā«sociedade da seduçãoĀ» (Gilles Lipovetsky) ou da Ā«sociedade da transparĆŖncia ou da positividade performativaĀ» (Byung-Chul Han), que sĆ£o tambĆ©m formas cómodas de uma certa sociologia pensar a complexidade da realidade, apraz-nos a via fenomenológica como via que terĆ” ainda algo a dizer a propósito da existĆŖncia, dos fenómenos artĆsticos e das obras de arte (13).
Filosofia e arte sempre foram Ćntimos, jĆ” para nĆ£o falarmos na relação entre pensamento mĆstico ou religioso e arte, que só uma ideologia academicista obtusa pode obliterar por completo
A arte, Ā«a querela da arte contemporĆ¢neaĀ» (14), se a hĆ” efectivamente, na medida em que Ć© discutĆvel hoje se hĆ” objectos artĆsticos que visem aspirar ao estatuto de pensamento, vive na encruzilhada que a reduziu ao comercial e ao gosto superior do maior nĆŗmero de consumidores, ao facto de jĆ” nĆ£o existir aparentemente a ferida, a rasura, a sujidade, rugosidade ou errĆ”tico, para ser iluminada. Tudo Ć© demasiado polido e flĆ”cido, portanto, sem corpos estranhos capazes de provocar estranheza em nós. DaĆ o sentimento de marginal que assola o pensamento do escultor Rui Chafes, quando escreve: Ā«A minha obra assenta em termos e princĆpios que parecem ser absolutamente ignorados pela contemporaneidade: o silĆŖncio e a sombra, a quietude, a religiĆ£o e o mito, a beleza e a impossibilidade da beleza, a solidĆ£o, a dor, a morte e a serenidade, a suspensĆ£o do tempo, a paragem do tempo no meio da velocidadeĀ» (15). Todavia, essa continua ainda a ser hoje uma via percorrida por alguns dos melhores criadores das artes de sentido, como Ć© o caso de Claudio Parmiggiani, Marilyn Robinson, Erri de Luca, Roseline de ThĆ©lin, Manfredi Quartana ou de ValĆØre Novarina, que vivem voluntariamente afastados das zonas promocionais do mercado da arte, e assumem a dimensĆ£o apofĆ”tica da mĆstica e do cristianismo como matĆ©ria viva de pensamento imagĆ©tico para as suas metĆ”foras literĆ”rias, esculturais ou pictóricas, sem como isso condicionar ou beliscar em nada a pulsĆ£o criativa livremente desejada.
Mais do que nunca se impƵe a necessidade de uma descrição fenomenológico-existencial da obra de arte para se sair de uma leitura meramente hermenĆŖutica ou semiótica, ou entĆ£o historicista e psicologizante, que tem sido, aliĆ”s, o caminho privilegiado, pelo menos no nosso ambiente intelectual e filosófico, na aproximação Ć obra de arte enquanto tal. Toda a arte Ć© a materialização de um pensamento. Acontece que o tempo dos artistas-filósofos ou pensantes chegou praticamente ao seu fim. O diĆ”logo de Bacon com Nietzsche Ć© constante. Basta pensarmos em artistas como Malevich, Paul Klee, Kandinsky, Giorgio de Chirico ou RenĆ© Magritte, entre tantos outros, que procuram dar corpo ou carne ao conceito e Ć ideia. Filosofia e arte sempre foram Ćntimos, jĆ” para nĆ£o falarmos na relação entre pensamento mĆstico ou religioso e arte, que só uma ideologia academicista obtusa pode obliterar por completo. Basta ver as teses e as anĆ”lises que sĆ£o feitas Ć s obras de arte, centradas na compreensĆ£o literĆ”ria, estilĆstica, contextual, sem qualquer peso do facto teológico ou espiritual. Como seria possĆvel compreendermos Tolstói ou Kafka, Bergman ou Tarkovsky sem o fundo Ā«DeusĀ» ou Ā«crĆsticoĀ» que muda tudo, na medida em que para esses criadores ele Ć© a ignição de toda a sua arte? (16)
O tédio de existir, não obstante a folia do divertimento nocturno ou a transferência do Absoluto de outrora para uma vida simplesmente estética, poderÔ ser trÔgico, quando a sua ausência se efectiva e perdura à precisamente isso que Francis Bacon, ou ainda mais radicalmente Lucian Freud, procura descrever picturalmente, sem concessões
Ora, se Ā«DeusĀ» nesses autores ainda se colocava como questĆ£o, que o diga Nietzsche, por exemplo, hoje Ā«DeusĀ» enquanto questĆ£o para o humano parece nĆ£o ser a interrogação fundamental das artes nem da literatura, nem o ponto de ignição para as buscas existenciais mais radicais. Surpreendentemente, ou nĆ£o, Ć© essa a tese do filósofo Byung-Chul Han quando fala do Ā«desaparecimento dos rituaisĀ» e a instauração da angĆŗstia moral como doenƧa mortal do sĆ©culo. O tĆ©dio de existir, nĆ£o obstante a folia do divertimento nocturno ou a transferĆŖncia do Absoluto de outrora para uma vida simplesmente estĆ©tica, poderĆ” ser trĆ”gico, quando a sua ausĆŖncia se efectiva e perdura (17). Ora, Ć© precisamente isso, em nosso entender, que Francis Bacon, ou ainda mais radicalmente Lucian Freud, procura descrever picturalmente, sem concessƵes, e drasticamente. Sem a possibilidade de uma abertura do espĆrito Ć TranscendĆŖncia, o humano degrada-se ao nĆvel da animalidade, na medida em que jĆ” nĆ£o Ć© racionalidade que nos diferenciaria, mas a capacidade, como diria Thomas Mann, de sentir o divino, de se sentir vinculado a uma comunidade ritual cujo sentimento supera a própria comunidade ou estĆ” para alĆ©m dela, como o sentido de uma obra estĆ” para alĆ©m da sua forma material.
No texto introdutório Ć exposição, a curadora afirma que Bacon Ā«desafiou-se a buscar novas possibilidades na representação da figura humana, da forma mais realista e evocativa possĆvel, explorando em que medida a vitalidade da carne e do sangue podia ser capturada e materializada na sua obraĀ», constituindo-se ao mesmo tempo, como ponto crĆtico do optimismo do iluminismo da modernidade, que sob a Ć©gide do progresso linear e absoluto, descuidou a possibilidade real da desintegração do humano, cujas sequelas sĆsmicas dessa hĆper-racionalidade se fazem sentir hiperbolicamente na numerização quase total do humano. As expressƵes baconianas da figura humana, da sua desfiguração e anamorfose Ć©, sem dĆŗvida, um contragolpe nesse optimismo exacerbado, que colocou na tecnociĆŖncia toda a esperanƧa libertadora da existĆŖncia humana.
Ao invĆ©s do āPenso, logo existoā, poderĆamos dizer que Bacon, e nĆ£o só ele, contrapƵe o āSinto, logo existoā, sendo aqui que se joga a verdade universal do humano
Todavia, olhar para a obra de Bacon Ć© ter em conta as diversas etapas do seu itinerĆ”rio artĆstico-existencial, pelo que o Bacon do pós-guerra nĆ£o Ć© o Bacon dos 70 em diante, como Ć© visĆvel, por exemplo, na sua inovação da cor. Assim, como nota Didier Ottinger, editor do catĆ”logo de retrospectiva da obra de Bacon, no Centre Pompidou: Ā«De 1971 a 1992 (data da morte do pintor), a pintura Ć© estilisticamente marcada pela sua simplificação, pela sua intensificação. As suas cores adquirem uma nova profundidade, ele usa um novo registro cromĆ”tico, amarelo, rosa, laranja saturado.Ā» (18)
NĆ£o por acaso Bacon, para alĆ©m de impor uma nova figuração do corpo e do rosto humano, opera uma crĆtica da modernidade, atravĆ©s da reabilitação do sensĆvel, do mĆtico, do arcaico, da animalidade, dos ritos ancestrais, como realidades significativas para a vida humana. Ao excesso de racionalidade Bacon contrapƵe a matĆ©ria negra da existĆŖncia, na qual se decide todo o que somos e o que nĆ£o somos, e sem qual, por muito discurso lógico ou razĆ£o que tenhamos, o sujeito desmorona-se, esvai-se como lĆquido que se rarefaz no drama de existir. Ao invĆ©s do āPenso, logo existoā, poderĆamos dizer que Bacon, e nĆ£o só ele, contrapƵe o āSinto, logo existoā, sendo aqui que se joga a verdade universal do humano. Este āsentimento de siā, que só o Ć©, na medida em que ressente o sentimento de Outrem, o desejo inalienĆ”vel de amar e de ser amado, de tocar e ser tocado, de desejar e de ser desejado.
A carnalidade e sanguinidade omnipresente em toda a sua obra, que o vermelho escuro sugere e intensifica o drama, acusa a ambiguidade da existĆŖncia: a morte e a vida, a pulsĆ£o e o tĆ©dio, a forƧa e fragilidade, como lugares de revelação da vida humana. A eminĆŖncia da morte Ć© real, pois ela flui do próprio corpo (os fluĆdos ou lĆquidos como expressĆ£o da sua presenƧa). E todavia, nĆ£o poderĆ” o irónico Kafka tambĆ©m dar-nos o antĆdoto para nĆ£o perdermos o horizonte do caminho, a amplitude da decisĆ£o e o dom da esperanƧa no seio da desgraƧa sanguĆnea baconiana? Ā«Existem dois pecados humanos capitais, dos quais todos os outros derivam: a impaciĆŖncia e o desleixo. Por causa da impaciĆŖncia os homens foram expulsos do paraĆso, por causa do desleixo nĆ£o voltam para trĆ”s. Mas talvez só exista um pecado capital: a impaciĆŖncia. Por causa da impaciĆŖncia foram expulsos, por causa dela nĆ£o voltam para trĆ”s [ā¦]. A partir de um certo ponto jĆ” nĆ£o hĆ” retorno. HĆ” que alcanƧar esse pontoĀ» (19). Inevitavelmente, hĆ” que prosseguir o caminho aberto pela carne crucificada atĆ© que o clarĆ£o incandescente nos sature de riso a impaciĆŖncia que paticamente nos habita.
(1)A Montanha MĆ”gica, Relógio dāĆgua, Lisboa 2020, p. 703.
(2) Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do Desassossego, edição Richard Zenith, AssĆrio & Alvim, Lisboa 2012, p. 157.
(3) Serena Bucalo-Mussley, Ā«Quando o imaterial se torna visĆvelĀ», in CatĆ”logo Alberto Giacometti-Peter Lindbergh: Capturar o InvisĆvel, edição MMIPO, Porto 2021, p. 112.
(4) David Sylvester, The Brutality of Fact: Interviews with Francis Bacon 1962-1979, Thames and Hudson, Nova Iorque, 1987, pp. 23,46.
(5) Gilles Deleuze, Francis Bacon: Lógica da Sensação, Orfeu Negro, Lisboa 2011, p. 64.
(6) Folha de sala da exposição Obras GrÔficas de Francis Bacon.
(7) Cf. https://wow.pt/pt/event-wow/exposicao-francis-bacon/
(8) Cf. Ā«Livro Actos dos Apóstolos (17, 28-29)Ā», in Novo Testamento, Vol. II: Apóstolos, EpĆstolas e Apocalipse, trad. Frederico LourenƧo, Quetzal, Lisboa 2017, p. 107.
(9) https://www.letemps.ch/culture/francis-bacon-corps-cri.
(10) Fernando Pessoa (Bernardo Soares), Livro do Desassossego, p. 106.
(11) Cf. folha de sala da exposição.
(12) Jean Genet, O EstĆŗdio de Alberto Giacometti, AssĆrio e Alvim, Lisboa 1998, pp. 19 e segs.
(13) Em Portugal, essa via é assumida quase solitariamente pelo filósofo José Gil, ao contrÔrio da tradição francesa, ou mais recentemente pela anglo-saxónica, que tem encetado caminhos fenomenológicos deveras originais na abordagem da obra de arte, particularmente, na relação entre a estética, a psiquiatria ou a psicanÔlise, assumindo, assim, por inteiro, a dimensão existencial da arte.
(14) Cf. Marc Jimenez, A Querela da Arte ContemporĆ¢nea, Orfeu Negro, Lisboa 2021, no qual o autor nos lanƧa a questĆ£o central: Ā«Como julgar a qualidade artĆstica de objectos e de prĆ”ticas quando jĆ” nĆ£o existem critĆ©rios nem normas de referĆŖncia?Ā» Ora a hipótese de Jimenez estĆ” que, relativamente Ć obra de arte contemporĆ¢nea, nĆ£o se trata tanto de incompreensibilidade por parte do pĆŗblico, mas da inadequação mesma dos conceitos tradicionais, tais como de arte, obra ou de artista, para expressar a criação artĆstica e conceptual contemporĆ¢nea. Todavia, permanece a questĆ£o de saber o que significa a palavra ācontemporĆ¢neoā e o seu alcance mais amplo, na medida em que toda a grande arte Ć© nossa contemporĆ¢nea, portanto imemorial, no sentido que continua ainda hoje a dizer-nos algo. Pode acontecer que um clĆ”ssico, que lemos e relemos vezes sem conta, seja mais nosso contemporĆ¢neo que um autor do sĆ©culo XXI. Acompanhamos o pensamento do escultor Rui Chafes quando afirma: Ā«TambĆ©m nĆ£o sei o que Ć© arte contemporĆ¢nea, nĆ£o sei o que Ć© isso; nĆ£o sei quem Ć© que decide ou quem Ć© que escreve acerca de uma arte que dizem que nasceu hojeĀ» (in O SilĆŖncio deā¦, AssĆrio & Alvim, Lisboa 2006, p. 94). A grande arte transporta consigo em cada Ć©poca e lugar toda a história da arte, do pensamento ou da filosofia, pois como dizia Umberto Eco, parafraseando Bernard de Chartres, caminhamos sempre āaos ombros dos gigantesā, a partir dos quais se abrem novas clareiras ou rasgƵes criativos. Francis Bacon Ć© um exemplo disso mesmo, pois a sua pintura inspira-se claramente em VĆ©lasquez ou ZurbarĆ”n. NĆ£o serĆ” este um critĆ©rio crucial para distinguir a arte de gĆ©nio da arte mediana ou meramente circunstancial?
(15) Rui Chafes, O SilĆŖncio deā¦, p. 94.
(16) Sobre a questĆ£o, ainda que nĆ£o de modo detalhado, mas com elementos de anĆ”lise absolutamente cruciais para uma outra abordagem da obra de arte, cf. Bernardo Pinto de Almeida, Arte e Infinitude. O contemporĆ¢neo: entre a arkhĆ© e o tecnológico, Relógio dāĆgua, Lisboa 2018. Em todo o caso, em minha opiniĆ£o, continua indiscutĆvel o trabalho imenso e Ćŗnico de Georges Didi-Huberman, que, com fineza e inteligĆŖncia, explora os meandros das obras de arte, numa reflexĆ£o sempre ampla e culta.
(17) Para constatarmos que esta questĆ£o nĆ£o estĆ” dĆ©modĆ©, nem diz respeito simplesmente ao mundo religioso ou teológico, Ć© de saudar vivamente a conferĆŖncia āA angĆŗstia de um mundo sem Deus e outras inquietaƧƵes da existĆŖncia: No bicentenĆ”rio do nascimento de Dostoievskiā, no Ć¢mbito do Festival dos Capuchos, a realizar no dia 3 de Julho de 2021, com intervenƧƵes de António Pescada, Guilherme dāOliveira Martins e HĆ©lia Correia, sob a moderação de Carlos Vaz Marques.
(18) Cf. Francis Bacon en toutes lettres : Catalogue de l’exposition prĆ©sentĆ©e au Centre Pompidou du 11 septembre 2019 au 20 janvier 2020, ā BibliothĆØque publique d’information du Centre Pompidou, Paris 2020.
(19) Francis Kafka, ConsideraƧƵes sobre o pecado, o sofrimento, a esperanƧa e o verdadeiro caminho, Sr Teste ediƧƵes, 2020, pp. 5, 6.
João Paulo Costa
Publicado em 17.06.2021 | Atualizado em 09.10.2023







