«A questão do sentido da vida coloca-se dramaticamente [nos jovens]», pelo que é necessário à Igreja «dialogar com essas procuras», considera o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça.
Em entrevista transmitida esta segunda-feira no programa Ecclesia (RTP-2), o responsável apresentou a 9.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que esta sexta-feira, 21 de junho, analisa em Fátima o tema “Culturas Juvenis Emergentes”.
Nestas declarações, de que apresentamos alguns excertos, o padre Tolentino Mendonça frisa a importância de compreender a diversidade das culturas juvenis, sublinha que é essencial saber ouvir antes de falar, menciona as dificuldades de compreensão entre Igreja e juventude, e apresenta a Jornada da Pastoral da Cultura, que continua com as inscrições abertas.
Culturas juvenis: compreender a diversidade
«Se tomarmos por definição de cultura aquilo que expressa a identidade de um conjunto de pessoas, sem dúvida que há culturas juvenis.»
«Há uma enorme necessidade de buscar uma identidade e uma afirmação dos códigos e gramáticas do próprio grupo, mas ao mesmo tempo há uma dispersão muito grande. Por isso é que é difícil falar da juventude. Há uma quantidade de subculturas dentro do mundo juvenil, pelo que importa ter alguma sensibilidade para se saber o que é hoje a realidade desse universo.»
Saber ouvir antes de falar
«[É importante] trazer para o interior do debate os códigos próprios das culturas juvenis, com a sua irreverência, dando-lhes espaço de expressão e reconhecimento. Para uma Pastoral da Cultura, o primeiro passo é sempre reconhecer o outro, o caminho que ele faz, a sede e a interrogação que transporta, para depois dialogar e fazer um percurso de acompanhamento.»
«A questão do sentido da vida coloca-se dramaticamente [nos jovens]. É necessário dialogar com essas procuras. Por isso é tão importante ouvir a música que eles escutam, saber quem são os seus heróis e referenciais, perceber a literatura que leem, as reivindicações, os modelos que estão por trás dos seus estilos e comportamentos, o seu silêncio. Perceber porque é que grande parte dos adolescentes e dos jovens ficam em silêncio perante as gerações mais velhas, saber que silêncio é esse e como interpretá-lo. É uma urgência que se coloca à Igreja.»
«O envolvimento comunicativo [entre a Igreja os jovens] supõe que haja um conhecimento profundo do que são hoje as culturas juvenis. São muito ricas, têm criatividade e exprimem valores profundamente evangélicos, mesmo que traduzidos de outra forma. Mas ao mesmo tempo exprimem um sofrimento muito grande. A juventude é hoje o lugar de solidão, de incerteza, de onde se olha o futuro com apreensão e medo enormes. Por isso há uma espécie de contração da esperança com a qual é necessário a Igreja dialogar.»
Igreja e jovens: diálogo de surdos?
«A linguagem oficial da Igreja é absolutamente incompreensível e ilegível para grande parte dos jovens. E isso é um problema muito grande porque, antes de tudo, coloca-se a questão da linguagem e do entendimento. (…) Nem sempre a Igreja tem tido a preocupação de se perguntar se aqueles para quem fala a entendem verdadeiramente.»
«O divórcio entre a Igreja e as culturas juvenis permanece em grande medida. São campos onde a evangelização não entra, onde faltam interlocutores, onde faltam iniciativas capazes de catalisar o entusiasmo. A juventude é hoje um campo de missão.»
«Olhando para o que se publica em Portugal, e mesmo procurando na literatura espiritual e religiosa, vemos que são muito raras as edições que possam interessar aos jovens. A produção teológica e do pensamento religioso dirige-se muito mais para um público adulto do que para um público jovem, o que mostra como há um desacompanhamento do mundo juvenil, que precisa de ser contornado.»
A Jornada da Pastoral da Cultura: “Culturas juvenis emergentes”
«Interessa-nos muito perceber como é que o mundo dos jovens se articula, que procura de sentido da vida fazem, como é que se abrem à questão da transcendência, que valores são privilegiados pelas culturas juvenis. Essa reflexão, no ano em que se celebram as Jornadas Mundiais da Juventude [23 a 28 de julho, no Rio de Janeiro], é muito oportuna.»
Hoje, a juventude é um admirável mundo novo, e também um mundo desconhecido, submerso. Muitas vezes é olhado como “o mundo dos miúdos”, a que não se pode dar demasiada importância. E de facto, há poucas instâncias de diálogo e até de conhecimento da realidade juvenil.»
«Vamos começar por ouvir o professor José Machado Pais a descrever o que é ser hoje jovem em Portugal. (…) O professor José Machado Pais é o grande especialista português no campo da sociologia que trata das culturas juvenis. (…) Poderá ser uma grande surpresa, sabendo nós como grande parte da crise financeira e antropológica que atualmente se vive tem uma expressão dramática no mundo juvenil.
Depois daremos voz aos próprios jovens, (…) permitindo-lhes falar em primeira pessoa. Teremos uma mesa redonda que congrega pessoas muito diferentes. Serão olhares muito complementares da realidade do mundo juvenil.
Teremos ainda o olhar de um jovem teólogo português, José Frazão, padre jesuíta, que falará sobre a irreverente fé dos jovens, fenómeno para o qual teremos de olhar com maior atenção. (…)
Ouviremos igualmente a palavra de D. Pio Alves de Sousa, presidente da Comissão Episcopal que reúne os meios de comunicação, os bens patrimoniais da Igreja e a cultura.»
«O esforço que a Igreja em Portugal está a fazer no diálogo com as culturas juvenis é transversal. A Pastoral da Cultura promove esta jornada de reflexão, mas o mundo Pastoral Juvenil, Pastoral Universitária e Pastoral escolar é continuamente acompanhado por outras estruturas.»
Rui Jorge Martins
© SNPC | 17.06.13








