O Bem-comum: o Ășnico caminho propriamente humano

Em termos cristĂŁos, a Ășnica realidade politicamente aceitĂĄvel Ă© o bem-comum. Todas as outras formas, por maiores que sejam as suas virtudes, como nĂŁo contemplam necessariamente o melhor bem possĂ­vel e a sua necessĂĄria concretização para todos os seres humanos, nĂŁo sĂŁo suficientemente perfeitas para que possam obedecer ao mandamento da caridade como indelĂ©vel imperativo.

A comum noção segundo a qual o bem como melhor bem para todos nĂŁo Ă© possĂ­vel nĂŁo Ă© apenas teoricamente errada como implica imediatamente a abdicação do sentido segundo o qual todos tĂȘm direito a partilhar do que a realidade lhes pode oferecer ao nĂ­vel mais elevado de possibilidade.

Quem assim pensa condena esses que deste modo obriga a nĂŁo poderem usufruir do bem melhor que lhes competia a nunca serem verdadeiramente seres humanos, pessoas, tĂŁo plenamente realizadas como pessoas como poderiam ser, como tĂȘm o natural direito de ser, apenas porque sĂŁo pessoas, sem qualquer outro requisito adicional, mesmo sem qualquer requisito inicial de mĂ©rito prĂłprio, pois, no momento inicial da existĂȘncia, ninguĂ©m tem qualquer mĂ©rito prĂłprio seu: tudo o que Ă© se deve e coincide com um dom, quer tal se perspetive de um ponto de vista natural, imanente e irreligioso, quer se perspetive a partir de um ponto de vista como o cristĂŁo, em que o que se Ă© incoativamente coincide com o dom divino e providencial do ser.

Seja qual for o caso, dentro dos limites estabelecidos por estes parĂąmetros extremos, cada ser, mormente o ser humano, coincide inicialmente com um acervo de possibilidades prĂłprias, inalienĂĄveis, e que sĂŁo tudo o que que Ă© do ponto de vista do que pode ser: tudo o que puder realizar-se como desenvolvimento ontolĂłgico prĂłprio depende destas possibilidades.

Ora, estas possibilidades acontecem sempre na forma de uma integração com as possibilidades de todos os outros seres, passados, presentes e futuros.

Todos os seres existem e apenas podem existir na forma de uma integração do que constitui a sua atualidade própria com a atualidade de todos os outros, desde o elemento ontológico mais fino e remoto até à realidade humana, que é, pelo menos, por ora, a realidade mais elevada

Nenhum ser existe ou pode existir que nĂŁo tenha como possibilidade prĂłpria sua o estar integrado infinitesimalmente com as possibilidades de todos os outros.

A esta integração universal – que transcende o que contemporaneamente se considera como o universo, reduzido a um sentido meramente material – chamamos «mundo», «universo». Nele nĂŁo hĂĄ ato algum que se possa considerar como desligado dos demais, em sentido absoluto, como se a sua realidade atual ou irrealidade absoluta fosse indiferente.

Todos os atos contam, pois todos contribuem, cada um a seu modo, para que tudo se erga em forma de ser e não haja o colapso no nada (convém não confundir isto com metamorfoses no seio do universo ou com eventuais passagens entre universos distintos, que fazem parte do que é o universo em seu sentido mais lato; a falsa metamorfose para o nada ou do nada absoluto para o ser é impossível: o ato supÔe sempre o ato).

No universo não-humano, a realidade das coisas acontece integradamente sem que cada coisa possa deliberar acerca de uma eventual oposição disruptiva do princípio de ordem que a orienta necessariamente. Mesmo em física quùntica, a irregularidade corresponde a uma forma de princípio, precisamente o que permite que haja irregularidade: um universo em que tal princípio existe não tem propriamente a capacidade de decidir, por irregularidade universal sua de ato, deixar de ser.

O sentido divino de que «tudo é bom», «tudo é belo» presente nos sete sucessivos finais de dias de criação divina do ser do mundo, a partir não do nada, mas do infinito amor de Deus, manifesta precisamente que a bondade do ato criador se espraia universalmente em todas as criaturas, sem exceção

Em termos biológicos não-humanos, mesmo com um grau de complexidade e de sofisticação (passe a prosopopeia) muito superior ao da que acontece no campo puramente não-biológico, nada hå que corresponda exatamente à capacidade humana de escolha deliberada contra o que é determinado pelos princípios de movimento a que se estå submetido.

Mesmo quando, em certas experiĂȘncias, seres nĂŁo-humanos parecem deliberar de forma semelhante Ă  humana, sĂł o podem fazer porque estĂŁo a seguir sem que o queiram ou saibam, procedimentos de matriz humana, cuja prossecução necessariamente tem cariz humano, seja efetuada por seres humanos, por seres vivos nĂŁo-humanos ou por mĂĄquinas programadas para imitar a escolha humana. Tais experiĂȘncias sĂł provariam alguma coisa do que se quer que provem, se fossem elas prĂłprias concebidas por entidades nĂŁo-humanas. Tudo o que Ă© produto da inteligĂȘncia humana marca antropicamente toda a decorrĂȘncia ulterior.

Deste modo, podemos perceber que todos os seres existem e apenas podem existir na forma de uma integração do que constitui a sua atualidade prĂłpria com a atualidade de todos os outros, desde o elemento ontolĂłgico mais fino e remoto atĂ© Ă  realidade humana, que Ă©, pelo menos, por ora, a realidade mais elevada que ontologicamente nos Ă© dado conhecer em nossa experiĂȘncia mundana.

É nesta mesma experiĂȘncia que o ato que constitui o ser humano individual e conjuntamente considerado surge tambĂ©m como realidade que nunca pode ser posta como algo de separado, como algo que nĂŁo faça parte do todo integrado de todos os seres. É este, aliĂĄs, o sentido profundo, de base ontolĂłgica – quer dizer, o ser atual dos seres humanos Ă© assim, nĂŁo de outro modo qualquer – do sentido hodierno de uma ecologia sĂ©ria, como a do papa Francisco, que se baseia no mesmo sentido jĂĄ presente no pensamento e na vida de Francisco de Assis, que o intui e vive quer a partir do sentido genesĂ­aco da bondade universal e integrada das criaturas criadas por Deus com o mesmo seu amor, quer a partir do sentido renovado do mesmo amor pela criação presente no providencial amor incarnado na pessoa de Jesus Cristo.

É este o sentido substantivo de «pessoa»: que Ă© uma realidade prĂłpria constituĂ­da por um sentido prĂłprio a nada redutĂ­vel, que encerra todo o seu bem possĂ­vel

O sentido divino de que «tudo Ă© bom», «tudo Ă© belo» presente nos sete sucessivos finais de dias de criação divina do ser do mundo, a partir nĂŁo do nada, mas do infinito amor de Deus, manifesta precisamente que a bondade do ato criador se espraia universalmente em todas as criaturas, sem exceção, a todas ligando nĂŁo como coisas de vizinhança – Ă© esta a ideia comum, que as coisas estĂŁo ao lado umas das outras, assim, sempre, desligadas fundamentalmente –, mas como coisas amadas por Deus e ligadas por esse mesmo amor que as ergue, nĂŁo por uma relação espacial, pois o espaço apenas divide, nĂŁo liga: a sua função Ă© precisamente, como criatura, marcar a diferença e a nĂŁo-confusĂŁo entre os corpos.

Em termos humanos, a ligação entre os diferentes seres humanos acontece através do que, no mesmo ato, constitui a sua pessoalidade como ato completo: através da relação, que é comunicação de pessoa a pessoa.

A relação entre as coisas dĂĄ-se atravĂ©s do movimento espacial, em que se aproximam e afastam, segundo princĂ­pios naturais. A relação entre os seres vivos acontece tambĂ©m segundo este modo, mas acrescentando a diferença constituĂ­da pela inteligĂȘncia prĂłpria de cada ser, que lhe permite seguir novos princĂ­pios que escapam, por exemplo, ao puro seguimento mecĂąnico das trĂȘs, assim chamadas, «leis de Newton». Neste sentido, os vĂ­rus sĂŁo os seres proporcionalmente mais inteligentes, pois mais nĂŁo sĂŁo do que um programa de replicação de vida com uma carapaça protetora: uma inteligĂȘncia na forma de escrita de um programa material autorreplicativo, que Ă©, ao mesmo tempo, a forma mais primitiva de inteligĂȘncia, mas a mais eficaz, como se percebe quando hĂĄ epidemias virais.

No entanto, esta inteligĂȘncia nĂŁo pode escolher autonomamente, limitando-se a ser automaticamente o que Ă©, mesmo quando muta, isto Ă©, mesmo quando hĂĄ modificaçÔes aleatĂłrias no que Ă© como programa inteligente operativo.

Os seres biológicos mais complexos, cada um a seu modo quer específico quer individual funcionam analogamente ao modo do vírus, se bem que com um nível de complexidade diferente, o que se reflete numa eficåcia também diferente.

No entanto, todos os seres necessitam de interação para poderem ser: no mínimo necessitam da interação a que chamamos «causalidade» e que manifesta o facto de haver um constante e ininterrupto movimento metamórfico no seio de todos os seres, o que o velho Heraclito denominava de movimento incessante que não permitia repetição.

NĂŁo Ă© a mera biologia que nos confere humanidade, mas o ato em que nos reconhecemos como mutuamente humanos, nĂŁo apenas como ato de inteligĂȘncia, ao modo dos vĂ­rus – que sabem bem a que parasitar –, mas na forma de ato de inteligĂȘncia que quer o bem do outro

No que diz respeito ao Ăąmbito do ato humano universal e de sempre, a relação dĂĄ-se na forma quer da inteligĂȘncia, ao modo dos outros seres nĂŁo-humanos, quer atravĂ©s de formas de inteligĂȘncia que os outros espontaneamente nĂŁo possuem, como Ă© o caso da inteligĂȘncia intelectual, essa que nos dĂĄ isso que Ă© o sentido «das coisas», na forma nĂŁo apenas de uma espĂ©cie de retrato instantĂąneo do real, mas como possibilidade, como finalidade, apenas presente como possibilidade: Ă© a realização possĂ­vel intuĂ­da do ato pleno de cada coisa que cai sob a nossa inteligĂȘncia que constitui o sentido de cada coisa.

Ora, na relação entre as pessoas Ă© precisamente este sentido como absoluto de possibilidade prĂłprio de cada pessoa presente Ă  nossa inteligĂȘncia que a constitui como pessoa na relação connosco, isto Ă©, que me permite reconhecer nela um sentido prĂłprio possĂ­vel, seu, inalienavelmente seu, sem que possa ser reduzido a algo de diferente sem que, por meio de tal redução, elimine essa pessoa no que de mais profundo possui, a sua possibilidade.

É este o sentido substantivo de «pessoa»: que Ă© uma realidade prĂłpria constituĂ­da por um sentido prĂłprio a nada redutĂ­vel, que encerra todo o seu bem possĂ­vel.

Todavia, como tal apenas se då na relação com outras pessoas, pois apenas nesta relação pode a pessoalidade de cada uma ser reconhecida, então, de cada pessoa faz parte a possibilidade de bem de todas as outras, em entre-reconhecimento e entre-ação. Tal reconhecimento e tal ação constituem o que é o bem-comum.

Sem este reconhecimento e esta ação não hå humanidade, apenas um conjunto de seres biológicos que mais não são do que mais uma espécie humanamente indiferenciada.

Note-se que se pode pensar numa espécie biologicamente semelhante à humana, mas sem esta entre-atividade de bem-comum. Ora, uma tal espécie não seria humana, apenas teria uma semelhança física com a humanidade, mas nada mais.

NĂŁo Ă©, pois, a mera biologia que nos confere humanidade, mas o ato em que nos reconhecemos como mutuamente humanos, nĂŁo apenas como ato de inteligĂȘncia, ao modo dos vĂ­rus – que sabem bem a que parasitar –, mas na forma de ato de inteligĂȘncia que quer o bem do outro. A esta inteligĂȘncia que ama chama-se formalmente «pessoa». A pessoa Ă© a comunidade, pois, a existĂȘncia de uma pessoa implica imediatamente a existĂȘncia da comunidade.

Américo Pereira
Universidade CatĂłlica Portuguesa, Faculdade de CiĂȘncias Humanas
Publicado em 09.03.2018 | Atualizado em 10.10.2023