Rumo ao amor, dia 35: SilĂȘncio

Diz Etty Hillesum no seu belĂ­ssimo diĂĄrio: «É preciso cada vez mais poupar as palavras inĂșteis para poder encontrar aquelas poucas que nos sĂŁo necessĂĄrias; e esta nova forma de expressĂŁo deve amadurecer no silĂȘncio.

Muitas vezes para as coisas melhores da vida faltam-nos as palavras, e as poucas que temos surgem-nos retĂłricas e gastas. As palavras sĂŁo um grande engano quando nos persuadem de ter atingido a verdade, distraindo-nos da busca. Quando algum de nĂłs pensa que tem uma qualquer experiĂȘncia espiritual ou religiosa sente de imediato a necessidade de falar dela, de a cobrir de teorias, de a comunicar com muitos discursos.

«NĂŁo o digais a ninguĂ©m», recomenda Jesus aos apĂłstolos, as palavras devem seguir os gestos, nĂŁo antecedĂȘ-los. É ilusĂŁo pensar que se atinge a essĂȘncia das coisas sĂł com as palavras, sem primeiro as ter feito viver em nĂłs.

As palavras tĂȘm o poder de curar, mas o silĂȘncio cumpre em nĂłs algo mais, faz renascer aquilo que dorme e reata relaçÔes com a nossa identidade profunda e autĂȘntica.

Procuro aceder ao silĂȘncio sobretudo na transparĂȘncia da manhĂŁ, donde do coração foi removido o tumulto dos nossos rancores, das nossas cĂłleras, de todos os nossos preconceitos, e se aprende a encarar e a escutar o silĂȘncio de Deus. A minha fraqueza e pobreza precisam de silĂȘncio e de acolhimento para se desdobrarem em mais humanidade.

Quanto mais este mundo estĂĄ imerso no ruĂ­do, mais forte para mim se torna a necessidade de momentos de silĂȘncio, para que minha presença diĂĄria com os outros manifeste a presença de Deus em mim.

Quem procura a essĂȘncia da vida passa sempre por dĂșvidas e incertezas, mas sĂł quando encontrares o silĂȘncio, ele te conduzirĂĄ para alĂ©m do limite da inteligĂȘncia, falarĂĄ ao teu coração e far-te-ĂĄ render diante do amor

Ao encontrar os outros tendemos a preencher o vazio que hĂĄ entre nĂłs e eles com demasiadas palavras, quando deverĂ­amos deixar esse vazio aberto a fim de que a relação com o outro continue a ser viva. O silĂȘncio Ă© condição necessĂĄria para continuar a acolher sem subjugar e dominar.

Raramente encontro ouvintes do silĂȘncio. Homens e mulheres que espalham o silĂȘncio mesmo quando falam, que procuram e nĂŁo se resignam, que sofrem mas nĂŁo se desesperam, que sabem escutar e ver os sinais da presença de Deus.

Ouvintes do silĂȘncio, que fazem uso do silĂȘncio como de um canto, de uma oração do coração, a aĂ­ aprendem a interrogar-se, a ver-se na profundidade ao elevarem-se para alĂ©m de si prĂłprios.

Ouvintes do silĂȘncio que abraçam na sua doçura e força, sobriedade e liberdade, ao ponto de se tornarem simples e sem pose, livres de toda a mĂĄscara ou narcisismo.

O silĂȘncio ao inĂ­cio requer um esforço, mas depois deve tornar-se uma atmosfera de vida, um modo de estar na realidade. O encontro com o silĂȘncio primeiro evita-se, porque tem o sabor de ausĂȘncia insuportĂĄvel, de tal maneira que se apresenta passivo como o aborrecimento, a espera e a dor; mas a certo ponto o silĂȘncio torna-se plenitude do vazio, hospitalidade recĂ­proca, sentes que Ă©s hospedado pelo silĂȘncio e que tu o estĂĄs a hospedar em ti.

«Eis que o atrairei a mim, conduzi-lo-ei ao deserto, e falarei ao seu coração» (Oseias 2,16). O silĂȘncio pede-te para saĂ­res, conduz-te para. Quem procura a essĂȘncia da vida passa sempre por dĂșvidas e incertezas, mas sĂł quando encontrares o silĂȘncio, ele te conduzirĂĄ para alĂ©m do limite da inteligĂȘncia, falarĂĄ ao teu coração e far-te-ĂĄ render diante do amor.

Luigi Verdi
In Il domani avrĂ  i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: alenkasm/Bigstock.com
Publicado em 08.10.2023